Ciência econômica, boa e ruim

Paul Krugman

26 de junho de 2012 | 17h09

Jonathan Portes se envolve num debate com Diane Coyle a respeito do estado atual da ciência econômica; como meu nome é citado tanto no texto dele quanto no dela, pensei que seria o caso de participar e acrescentar alguns pontos que considero importantes.

Portes fica ofendido com a afirmação de Diane segundo a qual os macroeconomistas não podem se declarar os grandes entendidos nesta crise, porque o público os despreza. Como destaca Portes, a verdade é que a macroeconomia – ao menos a forma de ciência macroeconômica praticada por ele e por mim – apresentou um desempenho espetacular na crise.

Portes cita um texto de Niall Ferguson publicado três anos atrás (que eu tive a felicidade de perder) no qual o autor me ridicularizava como o “sujeitinho do curso elementar de economia”, alguém que cometia a tolice de acreditar que imensos déficits governamentais pudessem falhar na tarefa de elevar os juros numa economia deprimida. De fato, foi isto que foi dito no curso elementar de economia – uma argumentação que se mostrou absolutamente correta. Os fundamentos macroeconômicos de IS-LM também diziam que, sob tais condições, a impressão de uma montanha de dinheiro não seria inflacionária, e que um corte acentuado nos gastos governamentais provocariam o encolhimento da economia. Tudo isto se tornou realidade.

Assim, os ensinamentos do curso elementar de economia se mostraram corretos – e, mais importante, produziram previsões corretas “a partir de uma amostra”, ou seja, a respeito daquilo que ocorreria sob condições muito diferentes da experiência normal. Trata-se do tipo de coisa que produz mudanças paradigmáticas na ciência: a luz se curva! Einstein tinha razão!

Assim sendo, de onde vem a sensação de que a ciência macroeconômica perdeu os parâmetros? Eu diria que este é um fenômeno essencialmente político. O tipo de macroeconomia que Portes e eu praticamos ofende as noções conservadoras de como as coisas deveriam funcionar numa sociedade capitalista e, por isso, a teoria é rejeitada independentemente do seu desempenho analítico; o apoio é dado a outras opiniões e outras pessoas, não obstante o quanto estejam equivocadas. Como resultado, tudo que o público ouve são discussões entre economistas envolvidos num duelo (sendo que alguns deles nem sequer entendem muito de economia). Trata-se de um grande problema – mas um problema que não está na ciência econômica, que se mostrou corretíssima mais uma vez.

O outro comentário que gostaria de fazer diz respeito à ideia segundo a qual a microeconomia estaria num estado muito melhor, algo que considero no mínimo questionável. Quer dizer que as suposições subjacentes à teoria microeconômica devem ser entendidas como verdadeiras? Maximização de utilidade? É isso mesmo? A microeconomia é consistente de acordo com parâmetros que não se aplicam à macroeconomia e, na maioria dos casos, é melhor interpretá-la como uma metáfora que pode ser útil desde que não a tratemos com demasiada seriedade.

Mas não existe atualmente um grande volume de obras empíricas a respeito da microeconomia? Sim – e o mesmo vale para a macroeconomia. A diferença é que, na maior parte dos casos, não vemos uma determinação política de negar os resultados empíricos da microeconomia. Mas, mesmo nesta área, em se tratando de temas nos quais há muito em jogo na política, como a dinâmica econômica do sistema de saúde, vemos a persistência de opiniões politicamente convenientes independentemente da força das provas contrárias. A primeira vez que ouvi o termo “ideias zumbis” foi no campo do sistema de saúde, não da macroeconomia.

Assim, para voltar ao debate original: o fato é que temos visto dias de glória para a macroeconomia padrão, que apresentou um desempenho notável sob condições de crise. Aqueles que ouviram uma história diferente devem responsabilizar a politicagem, e não a ciência econômica em si.

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