Com medo do fogo em meio ao dilúvio de Noé

Paul Krugman

21 de maio de 2010 | 17h13

As reações iniciais à minha coluna de quinta-feira foram curiosas, mas não inesperadas: tenho recebido muitas manifestações furiosas de pessoas que querem a sua crise de déficit e inflação, e não estão dispostas a aceitar um não como resposta.

Vamos recuar um pouco. No primeiro semestre de 2009, uma aguda divisão surgiu entre os comentaristas econômicos. De um lado, muitos olhavam para os grandes déficits orçamentários e a rápida expansão da base monetária e enxergavam coisas terríveis ocorrendo com as taxas de juros – quem financiará o imenso volume de empréstimos do governo? E a inflação – repare nos rios de dinheiro que o Fed está imprimindo! Do outro lado, alguns de nós – em especial aqueles que estudaram o que houve no Japão na década de 1990 – argumentaram que tais preocupações não correspondiam à nossa situação. Com a economia em depressão e os juros de curto prazo espremidos contra o limite inferior zero, os déficits governamentais não excluiriam os gastos privados; em vez disso, estes seriam estimulados. Quando estamos numa situação como essa, a expansão da base monetária não provoca inflação. Ao contrário, o perigo estava na deflação por excesso de capacidade.

Com efeito, testemunhamos o teste dessas duas opiniões. E adivinhe só. As taxas de juros apresentaram flutuação, mas, quando conferi, pela última vez 20 minutos atrás, os juros sobre as obrigações com prazo de 10 anos estavam em 3,17%. É isso mesmo, 3,17%. Onde estão os justiceiros do mercado de obrigações? Enquanto isso, o núcleo da inflação – é esta a medida que devemos observar – não para de despencar. (Como destaca Mark Thoma, isso refuta totalmente aqueles que insistiram em afirmar a inexistência de uma curva de Phillips.)

Mas, como disse, as pessoas que desejam sua crise de déficit e inflação não parecem dispostas a aceitar um não como resposta.

Tentei encontrar uma explicação para a curiosa insistência em alertar que enfrentamos a iminência de um aperto decorrente das taxas de juros e/ou da inflação; mas então percebi que isso já tinha sido feito por John Maynard Keynes quando ele explicou o quanto a economia clássica ainda dominava o pensamento econômico, apesar de sua incapacidade de explicar a Grande Depressão:

O fato de a vitória ricardiana ter sido tão completa faz com que seja revestida de curiosidade e de mistério. Essa vitória provavelmente se deveu a um complexo de afinidades entre a sua doutrina e o meio em que foi lançada. Creio que o fato de ter chegado a conclusões inteiramente diversas das que poderia esperar um indivíduo comum e pouco instruído contribuiu para seu prestígio intelectual. Deu-lhe virtude a circunstância de que seus ensinamentos, transportados para a prática, eram austeros e, por vezes, desagradáveis. Deu-lhe primor o poder sustentar uma superestrutura lógica, vasta e coerente. Deu-lhe autoridade o fato de poder explicar muitas injustiças sociais e crueldades aparentes como incidentes inevitáveis na marcha do progresso, e de poder mostrar que a tentativa de modificar esse estado de coisas tinha, de modo geral, mais chances de causar danos que benefícios. Por ter formulado certa justificativa à liberdade de ação do capitalista individual, atraiu-lhe o apoio das forças sociais dominantes agrupadas atrás da autoridade.

E tudo isso provoca efeitos reais e prejudiciais na economia. A equipe econômica do Goldman Sachs sugere, com argumentos interessantes, a hipótese de que as previsões da Comissão Federal do Mercado Aberto (FOMC) são artificialmente aumentadas por um pequeno grupo que insiste em prever uma inflação muito mais alta do que a esperada pelos demais; por sua vez, isso ajuda a limitar a disposição do Fed para sustentar a economia. E os falcões do déficit, é claro, assassinaram todas as esperanças de uma nova rodada de estímulo econômico.

Seja como for, estou certo de que os suspeitos habituais seguirão alardeando esses mesmos temores. Mesmo que tenhamos uma década perdida, ao estilo japonês, eles insistirão em prever uma hiperinflação iminente.

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