Como sabíamos que o estímulo era pequeno demais?

Paul Krugman

28 de julho de 2010 | 18h05

Aqueles de nós que dizem que o estímulo era pequeno demais são frequentemente acusados de fazer tal afirmação depois que os fatos a comprovaram: vocês disseram que isso funcionaria e, agora que o estímulo não deu certo, estão simplesmente dizendo que ele não foi grande o bastante.

A resposta rápida para esta acusação é que pessoas como eu alertaram para a insuficiência do tamanho do estímulo antes que todos percebessem o problema. Mas a resposta mais longa é que está tudo na matemática: a análise keynesiana nos fornece números e projeções qualitativas e, levando-se em consideração as projeções razoáveis para a economia feitas em janeiro de 2009, o estímulo proposto parecia simplesmente insuficiente. É hora de voltar o filme até janeiro de 2009:

Até o Gabinete Orçamentário do Congresso diz, entretanto, que “a produção econômica para os próximos dois anos deve ser, em média, 6,8% inferior ao seu potencial”. Isso se traduz em US$ 2,1 trilhões em capacidade produtiva imobilizada. “Nossa economia pode produzir um resultado US$ 1 trilhão abaixo de sua capacidade plena”, declarou Obama na terça-feira. Bem, ele estava na verdade amenizando a situação.

Para fechar um buraco de mais de US$ 2 trilhões – possivelmente muito mais, se as projeções do gabinete orçamentário se mostrarem excessivamente otimistas -, Obama oferece um plano de US$ 775 bilhões. E isso não é o bastante.

É verdade que, às vezes, o estímulo fiscal pode ter um efeito “multiplicador”: além dos efeitos diretos de, digamos, investimentos em infraestrutura sob demanda, pode haver também efeitos indiretos adicionais conforme rendas mais elevadas produzem um maior gasto dos consumidores. Estimativas padrão sugerem que cada dólar em gasto público provoca um aumento no PIB de aproximadamente US$ 1,50.

Mas apenas cerca de 60% do plano de Obama consiste em gastos públicos. O restante está nos cortes de impostos – e muitos economistas demonstram ceticismo em relação a até que ponto estes cortes, especialmente as isenções fiscais para empresas, serão capazes de estimular o consumo. (Certo número de senadores democratas parece partilhar dessas dúvidas.) Howard Gleckman, do independente Centro de Políticas Fiscais, resumiu a questão no título de uma atualização recente publicada num blog: “Grandes quantias, pequenos efeitos.”

Em resumo, o plano de Obama dificilmente será capaz de tapar mais do que a metade do rombo na capacidade produtiva, e é possível que não chegue a resolver um terço do problema.

Na prática, as coisas foram ainda piores, porque um dos elementos centrais do plano – o auxílio aos governos estaduais e municipais – foi muito reduzido no senado. Acabamos com um montante total de cerca de apenas US$ 600 bilhões em estímulo real ao longo de um período de dois anos.

Assim, aquilo que vivenciamos não foi um teste do estímulo fiscal, mesmo que as coisas tenham tido esta aparência na arena política: a iniciativa toda era de uma insuficiência óbvia desde o início.

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