Discutindo com os mercados

Paul Krugman

27 de outubro de 2010 | 16h07

Uma confusão com a qual costumo me deparar é a crença de que há algum tipo de contradição entre os momentos em que eu e outros analistas defendemos que o mercado está enganado – como quando eu fiz ao diagnosticar a formação de uma bolha no mercado imobiliário, e também agora ao questionar as crenças otimistas do mercado em relação à inflação – e meu argumento segundo o qual os juros baixos prejudicam a defesa de uma austeridade fiscal imediata.

O que as pessoas parecem não entender é que em ambos os casos eu parto das leis fundamentais da economia. São os defensores da austeridade que apelam à psicologia do mercado para rejeitar tais leis fundamentais – e a questão, portanto, é que esta psicologia do mercado só existe na imaginação deles.

O argumento chave contra a implementação de medidas de austeridade fiscal no momento presente reside no fato de isso ser uma política equivocada: o resultado seria uma economia deprimida, ao mesmo tempo produzindo um efeito positivo mínimo sobre a posição orçamentária no longo prazo (e pode até tornar esta posição de longo prazo ainda pior). Já fiz os cálculos repetidas vezes neste blog.

Mas os defensores da austeridade dizem que os números não importam – precisamos fazer cortes já, agora, imediatamente, caso contrário os justiceiros dos mercados de títulos vão atacar.

E a pergunta é: onde estão estes justiceiros? Parece que eles estão tentando nos tapear ao emprestar ao governo dos EUA a juros reais negativos.

Assim, a questão não é que o mercado tem sempre razão, e sim que, se a ideia é sugerir que aplacar os mercados é mais importante do que uma análise econômica racional, é melhor ter provas de que os mercados se importam minimamente com aquilo que se está exigindo.

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