Empurrando o euro com a barriga

Paul Krugman

20 de junho de 2011 | 18h40

A reação dos líderes e das instituições da Europa diante da crise grega consiste numa cena notável. Essencialmente, a questão se resume ao fato de que uma moratória seria muito inconveniente, tanto em termos práticos quanto em se tratando do prestígio. Assim, não devemos levar em consideração a possibilidade de uma moratória, mesmo apesar de há muito ter se tornado óbvio que evitar uma moratória não é uma opção.

Será que eles vão empurrar o problema com a barriga outra vez, prometendo uma solução um pouco mais para frente ? Não sei. Só sei que o custo desta estratégia de adiamento é em si muito mal compreendido.

Não paro de ver comentários apontando que a demora na busca por uma solução definitiva para a situação grega está custando centenas de bilhões de euros, pois as estimativas das proporções do resgate financeiro necessário seguem aumentando. Mas este tipo de cálculo ignora completamente a verdadeira questão. O Fundo Europeu de Estabilização não é um programa de transferência; trata-se de uma linha de crédito projetada para oferecer a liquidez necessária à superação de um aperto temporário. Como o verdadeiro problema não é este, o tamanho do fundo é uma dimensão do delírio europeu, e não do custo de um resgate.

Além disso, a Grécia não é como um banco texano dos anos 80, usando as garantias dos depósitos e o recuo da regulação para fazer apostas cada vez maiores, com isto aumentando muito o custo final de um resgate.

Qual seria, então, o custo real de empurrar o problema com a barriga e buscar uma solução definitiva mais tarde? Eu diria que a resposta deve ser pensada de duas formas: o custo para a Europa como um todo, incluindo a Grécia, e o custo para o continente europeu excluída a Grécia.

Para a Europa que inclui a Grécia, o custo do atraso é o custo real que incide sobre a economia grega: a demora na definição de uma solução realista para o problema do endividamento significa o prolongamento do período de alto desemprego e produção deprimida. Se incluirmos no cálculo a diferença cada vez maior entre o PIB real e a capacidade produtiva grega, teremos uma estimativa do verdadeiro custo desta demora.

Para uma Europa sem a Grécia, o custo da demora será o impacto desta demora na quantia que a Grécia acabará pagando ao credor. Acho razoável afirmar que, a esta altura, exigências por uma austeridade ainda maior serão contraproducentes, mesmo em termos do interesse dos credores: a economia grega está sofrendo estragos no longo prazo, a cena política grega está passando por uma radicalização, e as chances de a Grécia mandar seus credores às favas enquanto desvaloriza o novo dracma está aumentando.

Seja como for, devemos nos perguntar qual o motivo da demora europeia. Por qual motivo outros seis meses de linhas de crédito e sofrimento deveriam trazer melhorias para a situação?

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