EUA rumam para uma década perdida?

Paul Krugman

22 de maio de 2010 | 15h58

Apesar de um coro de vozes clamando o contrário, não somos a Grécia.

Mas estamos cada vez mais parecidos com o Japão.

Nos últimos meses, grande parte dos comentários sobre economia se concentra num tema central: os legisladores estão fazendo demais. Os governos precisam parar de gastar, é o que se afirma. A Grécia é citada como exemplo de alerta e cada aumento da taxa de juro dos títulos do governo é visto como um sinal de que os mercados estão atacando os EUA por causa dos seus déficits.

Por outro lado, os alertas são contínuos no sentido de que a inflação está rondando e que o Federal Reserve precisa deixar de lado seus esforços para apoiar a economia e começar a pensar numa “estratégia de saída”, apertando o crédito, por meio da venda de ativos e um aumento das taxas de juros.

E o que dizer do desemprego que está quase batendo um recorde, com uma taxa de desemprego de longo prazo jamais observada desde a década de 30? E o que falar dos ganhos em termos de vagas de emprego nos últimos meses, que, embora bem-vindos, só conseguimos recuperar menos de 500.000 postos de trabalho dos oito milhões perdidos por causa da crise financeira? A verdade é que os legisladores não estão fazendo demais, mas o contrário. Dados recentes não sugerem que os EUA estão caminhando para uma perda da confiança do investidor, como na Grécia. Inversamente, eles indicam que estamos caminhando para uma década perdida, como o Japão, preso numa era prolongada de alto nível de desemprego e lento crescimento.

Os juros

Vamos abordar, primeiro, as taxas de juro. Em diversas ocasiões, no ano passado, depois de alguns modestos aumentos das taxas, foi dito que os vigilantes dos títulos tinham chegado, que seria melhor os EUA reduzirem seu déficit. E em todas as ocasiões, as taxas logo depois tiveram uma queda. Mais recentemente, em março, falou-se muito sobre a taxa de juro sobre os títulos do governo de 10 anos, que subiram de 3,6% para 4%. “Temores com a dívida fazem as taxas subirem”, foi a manchete do Wall Street Journal, embora não houvesse, na realidade, nenhuma evidência de que os temores com a dívida eram os responsáveis.

Desde então, contudo, as taxas têm oscilado para cima e para baixo. Na quinta-feira, a taxa sobre títulos de 10 anos estava abaixo de 3,3%.

Gostaria de poder dizer que as quedas nas taxas de juros refletem um aumento de otimismo sobre as finanças federais americanas. Mas o que elas refletem, na verdade, é um aumento do pessimismo quanto a uma recuperação econômica, pessimismo que faz os investidores fugirem de qualquer coisa considerada arriscada – por isso a forte queda nas bolsas – e procurarem a segurança observada da dívida do governo dos EUA.

Pessimismo

O que está por trás desse novo pessimismo? Ele reflete, em parte, os problemas na Europa, que têm menos a ver com dívidas de governo do que tem se falado; o problema real é que, ao criarem o euro, os líderes europeus impuseram uma moeda única para economias que não estavam prontas para adotá-la.

Mas têm ocorrido também sinais internos, e o mais recente foi o relatório, publicado quarta-feira, sobre os preços ao consumidor, indicando que uma medida chave da inflação caiu abaixo de 1%, chegando ao seu patamar mais baixo em 44 anos.

O que não é, na verdade, uma surpresa; o que você espera é que a inflação caia diante do desemprego em massa e do excesso de capacidade.

Mas, não obstante, essa é uma má notícia. A inflação baixa, ou pior ainda, deflação, tende a perpetuar a recessão econômica, porque encoraja as pessoas a poupar seu dinheiro, mais do que gastar, o que mantém a economia contraída, provocando mais deflação. Esse círculo vicioso não é hipotético; basta perguntar aos japoneses, que caíram nessa armadilha deflacionária na década de 90 e, apesar de fases ocasionais de crescimento, ainda não saíram dela. E isso pode ocorrer aqui.

Assim, o que deveríamos estar perguntando não é se estamos em vias de nos transformar numa Grécia. Em vez disso, devemos nos perguntar o que estamos fazendo para evitar que nos transformemos num Japão. E a resposta é: nada.

Sem inflação

Não quer dizer que ninguém entende esse risco. Suspeito muito que algumas autoridades do Fed veem claramente paralelos com o Japão e gostariam de poder fazer mais para apoiar a economia. Mas, na prática, tudo o que podem fazer é conter os impulsos de colegas seus que, (como nos anos 30), continuam muito temerosos da inflação, apesar da ausência de qualquer evidência de elevação de preço.

E suspeito também que os economistas do governo gostariam de um outro plano de estímulo. Mas sabem que esse plano não terá chances de ser aprovado por um Congresso assombrado pelos falcões do déficit.

Em resumo, o temor de ameaças imaginárias impediu qualquer resposta eficaz para o real perigo enfrentado pela nossa economia.

O pior deve acontecer? Não necessariamente. Talvez as medidas econômicas já adotadas acabem tendo resultado, dando início a uma recuperação autossustentada. Certamente, é isso que todos nós esperamos. Mas esperança não é um plano.

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