Euro-românticos maçantes e cruéis

Paul Krugman

22 de novembro de 2011 | 16h21

Se existe uma palavra que tenho ouvido muito ultimamente é: tecnocrata. Às vezes, ela é usada a título de escárnio – os criadores do euro são tecnocratas que não levaram em conta fatores culturais e humanos. Outras vezes é usada como elogio: os novos primeiros-ministros de Grécia e Itália são tecnocratas que estão acima da política e farão o que é preciso ser feito.

Acho injusto. Conheço tecnocratas, às vezes, eu mesmo atuo como um. E estas pessoas – as pessoas que obrigaram a Europa a adotar uma moeda comum e que estão forçando Estados Unidos e Europa a adotarem medidas de austeridade – não são tecnocratas. Pelo contrário, são românticos irrealistas.

E, com certeza, trata-se de uma classe de românticos peculiarmente maçantes, que se expressam numa prosa grandiloquente em vez de poesia.

E as coisas que exigem em nome das suas visões românticas são cruéis, envolvendo enormes sacrifícios dos trabalhadores e suas famílias.

Mas Persiste o fato de que essas visões são impelidas por sonhos de como as coisas deveriam ser e não por uma avaliação fria da maneira como as coisas realmente são.

E para salvar a economia mundial precisamos derrubar esses românticos perigosos dos seus pedestais.

Comecemos com a criação do euro. Se acha que este foi um projeto motivado por um cálculo cuidadoso dos custos e benefícios, você está muito mal informado.

A verdade é que, desde o início, a marcha da Europa na direção de uma moeda comum foi um projeto questionável sob qualquer análise econômica objetiva. As economias do continente eram muito discrepantes para funcionarem sem percalços com uma única política monetária para todas e, muito provavelmente, condenada a experimentar “choques assimétricos” em que alguns países entrariam em colapso, ao passo que outros prosperariam. E, ao contrário dos Estados do território americano, os países europeus não fazem parte de uma única nação com um orçamento unificado e um mercado de trabalho ligado por uma linguagem comum.

Assim, por que esses “tecnocratas” insistiram tanto no euro, desconsiderando os muitos alertas dos economistas? Em parte foi o sonho da unificação europeia que a elite do continente achou tão atraente que seus membros deixaram de lado as objeções práticas.
E em parte foi um ato de fé econômico, a esperança – impelida pela vontade de acreditar, apesar das fortes evidências do contrário – que tudo funcionaria bem desde que as nações praticassem as virtudes vitorianas da estabilidade de preços e a prudência fiscal.
É triste dizer, mas as coisas não funcionaram como prometido.

Contudo, em vez de se ajustarem à realidade, esses supostos tecnocratas redobraram a aposta – insistindo, por exemplo, que a Grécia conseguiria evitar o calote aplicando um plano de austeridade cruel, quando qualquer pessoa que conhece aritmética sabia que não daria certo.

Deixe-me tratar em particular do Banco Central Europeu (BCE) que, supostamente, seria a instituição democrática de última instância e que é conhecida por se refugiar na fantasia quando as coisas vão mal. No ano passado, por exemplo, o BCE confiou na afirmação de que cortes no orçamento, no caso de uma economia fragilizada, promoveriam uma expansão. Estranha essa afirmação, isso não ocorreu em lugar nenhum.

E agora, com a Europa em crise – uma crise que não pode ser refreada, salvo se o BCE adotar medidas para interromper o círculo vicioso do colapso financeiros -, seus líderes ainda se agarram à noção de que a estabilidade cura todas as doenças. Na semana passada, Mario Draghi, o novo presidente do BCE, declarou que “ancorar as expectativas inflacionárias” é “a maior contribuição que podemos oferecer para apoiar um crescimento sustentável, a criação de empregos e a estabilidade financeira”.

Trata-se de uma afirmação totalmente fantasiosa, feita no momento em que a inflação europeia esperada é bastante baixa e o que vem inquietando os mercados é o temor de um colapso financeiro mais ou menos imediato. E é mais uma proclamação religiosa do que uma avaliação tecnocrata.

Apenas para deixar claro, não estou me insurgindo contra os europeus, uma vez que temos os nossos pseudo-tecnocratas pervertendo o debate nacional. Em particular, grupos alegadamente apartidários de especialistas têm conseguido desviar o debate político econômico, mudando o foco do problema do emprego para o do déficit.

Os verdadeiros tecnocratas estão questionando por que isso teria sentido num momento em que o índice de desemprego chega a 9% e o juro sobre a dívida dos EUA é de apenas 2%. Mas, como o BCE, nossos tecnocratas ranzinzas têm seus argumentos sobre o que é importante.

Então, sou contra os tecnocratas? Não, absolutamente. Gosto deles – são amigos meus. E precisamos de conhecimento técnico para lidar com nossas dificuldades econômicas. Mas o nosso discurso está sendo distorcido por ideólogos e sonhadores – românticos maçantes e cruéis – fingindo ser tecnocratas.

Está na hora de pôr fim às suas pretensões.

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