Evite o pensamento limitado

Paul Krugman

30 de março de 2010 | 17h26

Por meio de Brad DeLong, vejo que Greg Mankiw parece ser a favor de uma limitação na atividade bancária: exigir dos bancos que mantenham todos os seus depósitos em ativos líquidos de curto prazo, prevenindo assim o risco de crises financeiras.

Fico feliz em ver que Greg está tentando esclarecer o assunto; mas eu diria que tudo isso é errado em dois níveis: se a proposta fosse possível, ela acabaria com o principal propósito dos bancos e, seja como for, essa ideia não é possível.

Acho que o equívoco de Greg está em sua tentativa de aplicar Modigliani-Miller, dupla que afirma a desimportância da estrutura do capital. Se analisarmos os pressupostos dessa ideia, perceberemos que ela exige que todos os ativos tenham liquidez perfeita. É claro que eles não a têm – e é exatamente por isso que precisamos dos bancos.

Encaro a questão da regulamentação dos bancos nos termos de Diamond-Dybvig, que enxergam os bancos como instituições que proporcionam aos indivíduos acesso imediato ao seu dinheiro, garantindo ao mesmo tempo que a maior parte desse dinheiro seja investida em ativos de baixa liquidez. Trata-se de uma atividade produtiva, pois permite que a economia tenha ambas as coisas, proporcionando liquidez sem abrir mão dos investimentos de longo prazo e baixa liquidez.

Para garantir essa limitação na atividade bancária, teríamos de privá-la de uma das principais maneiras por meio das quais conciliamos a necessidade de estar prontos para contingências de curto prazo com as recompensas do comprometimento de prazo mais longo.

De qualquer modo, como obrigar a atividade bancária a aceitar essa limitação? É verdade que poderíamos exigir que as instituições depositárias sejam bancos limitados – mas o problema não está nas instituições depositárias. A crise recente teve como centro os contratos de recompra e, como insiste Gary Gorton (e outros), os contratos de recompra – empréstimos de um dia nos quais muitas empresas estacionam seus fundos – são dinheiro, assim como os depósitos bancários.

Se as instituições depositárias forem obrigadas a se tornar bancos limitados, uma quantidade ainda maior de recursos migraria para os pseudo bancos que agem nas sombras. O próximo passo seria a proibição dos contratos de recompra? Onde isso vai parar?

É por isso que a regulamentação precisa ser mais sofisticada do que algo tão simples quanto a proposta de uma atividade bancária limitada. O caminho a seguir é proporcionar garantias do governo – a versão contemporânea dos seguros para depósitos – com uma regulamentação capaz de evitar que as instituições garantidas não abusem do privilégio concedido.

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