Explicando as tendências

Paul Krugman

26 de julho de 2010 | 18h18

Sempre que desenho um gráfico comparando o crescimento real com a tendência anterior à crise, como fiz na última atualização do blog, recebo queixas de dois tipos. Alguns leitores reclamam dizendo que esta não seria a maneira correta de representar o gráfico – o certo seria estabelecer uma tendência a partir dos pontos médios dos gráficos de dispersão anteriores, e não a partir do começo do auge de um ciclo econômico. Outros reclamam dizendo que anos como 2007 e 2000 são escolhas ruins para os gráficos porque a produção foi inflada por uma bolha.

Na verdade, tenho bons motivos para calcular as coisas desta forma. Para compreender o que está havendo, é preciso pensar no significado de uma recessão. (Farei algumas ressalvas no fim.)

Pense na economia como uma máquina, dotada de certo nível de capacidade produtiva – um ritmo máximo de funcionamento seguro, se preferir. Com o tempo, essa capacidade produtiva cresce a um ritmo relativamente constante. Mas a produção real cresce com uma constância muito menor, e às vezes recua, porque às vezes o funcionamento da economia fica muito aquém de sua capacidade máxima. É isso o que uma recessão significa; alguma coisa deu errado, fazendo com que a máquina não funcione direito. Como disse Keynes, temos um problema no alternador.

Assim, nosso objetivo é comparar a produção registrada com aquela que a economia poderia apresentar. E, para tal estimativa, usar como referência o último auge no ciclo econômico é uma boa fórmula. Isso porque, no auge do ciclo econômico, a economia costuma estar funcionando num ritmo próximo ao de sua capacidade máxima – em parte porque os bancos centrais tentam desacelerar o crescimento quando acham que a economia está sob risco de superaquecimento, o que levaria à inflação. Interpretar as tendências econômicas a partir da interpolação dos pontos mais altos é uma prática comum porque os picos são uma estimativa razoável da capacidade econômica, ao passo que outros pontos do ciclo econômico não nos fornecem informações como essas.

É por isso que meço as tendências a partir do último auge no ciclo econômico.

Mas alguns leitores se mostram preocupados com a possibilidade do crescimento verificado em tal auge ter sido inflado por uma bolha. Trata-se de uma confusão entre oferta e procura. As bolhas estimulam a demanda – elas não aumentam a capacidade da economia (quando muito, a reduzem). Elas estimulam o uso da capacidade da economia, e por isso uma bolha pode levar uma economia ao máximo de sua capacidade; mas este ponto máximo ainda é um bom indicador do quanto a economia é capaz de produzir, mesmo que ela esteja produzindo artigos que as pessoas não deveriam comprar.

Sei o que estou fazendo com esses gráficos de tendências econômicas.

Eis a ressalva: não acreditamos realmente que haja um limite fixo para a capacidade produtiva; trata-se de um limite flexível, segundo o qual a inflação acelera conforme o desemprego recua mais e mais em relação à NAIRU – o desemprego estrutural mínimo condizente com uma inflação constante. É por isso que às vezes a economia opera acima das medidas padrão de produtividade potencial, que tomam como base a NAIRU. Mas isso significa apenas que, quando uso como referência um ano como 2007, por exemplo, precisamos nos perguntar se havia naquela época sinais de uma aceleração na inflação. Não havia. E as bolhas não deixam de ser irrelevantes.

Por que tudo isso é importante? Em ambos os lados do Atlântico, economias avançadas certamente registraram um aumento significativo em sua capacidade desde 2007 – mas estão produzindo consideravelmente menos agora do que naquele ano. Esta é a lacuna na produtividade. Suponhamos que a lacuna seja de 6%; eu diria que está mais próxima de 8%, mas cada um faz suas próprias contas. Suponhamos também que a produtividade potencial cresça a um ritmo de 2% ao ano. Neste caso, quanto tempo de crescimento seria necessário para que voltássemos ao ponto em que deveríamos estar? Se o crescimento anual for de 3%, coisa que muitos considerariam um sucesso, seriam necessários 6 anos. Se o crescimento anual fosse de 4%, ainda seriam necessários 3 anos.

Em resumo, estamos funcionando muito abaixo da capacidade de nossa economia – e fico ao mesmo tempo chocado e deprimido com a falta de urgência observada entre os governantes no sentido de fechar esta lacuna.

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