Gregos, romanos e a reforma financeira

Paul Krugman

26 de março de 2010 | 19h05

Estou tentando compreender os detalhes da reforma financeira, e principalmente as diferenças entre a proposta de Frank, já aprovada pela Câmara, e a proposta de Dodd. E não paro de pensar numa estranha analogia com a história antiga.

Em algum lugar, há muito tempo, li a respeito das diferenças entre os métodos militares dos romanos e aqueles empregados entre os governos helênicos após as conquistas de Alexandre, o Grande. A explicação dizia que os exércitos helênicos eram uma coleção de especialistas: infantaria pesada com lanças de cinco metros de comprimento, arqueiros, cavalaria e assim por diante. Em comparação, os exércitos romanos eram formados por soldados comuns: sujeitos armados com escudos, espadas curtas e dardos.

Quando bem utilizados, os exércitos helênicos ficavam em posição de vantagem: dispunham de um maior alcance se sua infantaria enfrentasse soldados armados com espadas curtas, e também no caso de seus arqueiros enfrentarem soldados com dardos e assim por diante. Mas para que tudo funcionasse da maneira correta era necessário um comandante do mais alto nível; era fácil ver-se em maus lençóis se a sua falange se encontrasse num terreno acidentado, por exemplo.

Em comparação, os exércitos romanos eram relativamente robustos sob uma liderança medíocre, já que os soldados funcionavam relativamente bem nas mais variadas circunstâncias. E, afinal, como os líderes medíocres são a regra, o método romano prevaleceu.

O que tudo isso tem a ver com a reforma financeira? Eu diria que o sistema utilizado antes da década de 1980 era bastante robusto. Os reguladores dos bancos não precisavam ser muito brilhantes porque as regras eram simples – e, além disso, o grande valor das franquias bancárias, o fato de os bancos enfrentarem uma concorrência limitada e terem seus lucros praticamente garantidos, fazia com que seus executivos fugissem dos grandes riscos por medo de matar a galinha dos ovos de ouro.

Em comparação, as propostas de regulação debatidas atualmente são bastante gregas – elas dependem dos reguladores para identificar tanto os riscos sistêmicos quanto as medidas necessárias para combatê-los. A proposta de Frank (Câmara) é mais romana do que a proposta de Dodd (Senado), pois estabelece limites rígidos e não discricionários para a alavancagem e outros aspectos do sistema; na proposta de Dodd, muita coisa fica a critério do Fed e outras autoridades.

Isso não faz da reforma financeira algo inútil. Mas a preocupação existe, pois não podemos contar com o fato de que os reguladores serão invariavelmente pessoas inteligentes e bem-intencionadas. Mike Konczal elaborou uma interessante tabela mostrando quem estaria no Conselho de Supervisão da Estabilidade Financeira em 2005: John Snow, John Dugan, Alan Greenspan…

Sou favorável à aprovação da reforma. Mas sou menos otimista em relação aos seus resultados, mesmo que ela seja aprovada.

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