Há bolhas e bolhas

Paul Krugman

25 de agosto de 2010 | 16h45

No todo, acho espantoso e lamentável que o medo de novas bolhas esteja jogando um grande papel na discussão sobre a política econômica corrente, levando muitos economistas de proa a recomendar a elevação das taxas de juros no cenário de uma economia enormemente deprimida. Mesmo que se acredite que as taxas de política monetária excessivamente baixas foram uma razão fundamental da bolha imobiliária – o que eu não acho – a ideia de que deveríamos estar aumentando as taxas agora me traz à lembrança a velha piada do motorista que atropela um pedestre, depois tenta consertar o estrago dando ré e passando uma segunda vez sobre o pedestre.

Além disso, acho que precisamos ter em mente que, embora as bolhas sejam em geral uma coisa ruim, o grau de ruindade vai depender bastante do contexto – em particular, se a inflação da bolha foi acompanhada de um grande aumento da alavancagem da parte dos que estão comprando os ativos inflados.

Considere-se a bolha do mercado acionário no fim dos anos 1990. Foi uma loucura, e quando ela estourou, as famílias americanas sofreram uma perda de capital de aproximadamente US$ 5 trilhões. Isso foi mau, e ajudou a causar uma recessão, mas não chegou ao nível de uma catástrofe econômica.

Depois veio a bolha imobiliária, após a qual as famílias sofreram uma perda de capital de aproximadamente US$ 8 trilhões. Sim, elas também sofreram um grande prejuízo quando as ações despencaram – mas isso porque o estouro imobiliário, diferentemente do estouro acionário, teve um impacto enorme no sistema financeiro e na economia como um todo.

Qual foi a diferença? Primeiro, uma porção de instituições financeiras – que são altamente alavancadas – retinham papéis cujo valor era extremamente sensível à situação do mercado imobiliário. Não houve nada comparável no caso das ações. Assim o estouro imobiliário corroeu o sistema financeiro de uma maneira que as ações não fizeram.

Segundo, as famílias também se endividaram no boom imobiliário, de um modo que a maioria delas não fez com as ações (sim, havia pessoas comprando ações pontocom na margem, mas elas não foram típicas). Assim, o estouro imobiliário criou uma crise de balanço para o setor doméstico de uma maneira que o estouro das pontocom não criou.

A moral da história por enquanto é que mesmo que se acredite que há bolhas se formando ou prestes a se formar, elas só serão um grande problema se estiverem causando posições alavancadas de atores chaves. A alegada bolha do carry trade (tipo de especulação cambial) de certa forma pode preencher esse critério, embora eu nunca tenha achado as advertências tão persuasivas assim. Mas outras coisas – bolhas em papéis dos Bric ou no ouro, ou seja o que for -, não se sustentam.

De qualquer sorte, meu propósito aqui não é tanto os acontecimentos correntes como uma observação de caráter mais geral: as bolhas que devemos temer são as que conduzem à alavancagem, e nos predispõem a um “momento Minsky” (crise de mercado após período prolongado de crescimento e especulação).

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