Insensatez comum

Paul Krugman

28 de maio de 2010 | 16h03

Como percebem, ainda não comecei o passeio de bicicleta; e tive a oportunidade de ler o novo Panorama Econômico da OCDE. Trata-se de um documento aterrador.

Por quê? Não apenas por apresentar uma perspectiva desanimadora, coisa que o relatório certamente faz – apesar de a OCDE ter aumentado suas projeções de crescimento, a organização ainda prevê um desemprego altíssimo nos próximos anos.

O mais assustador é constatar como as piores sandices são agora tomadas como opiniões respeitáveis.

Eis o que a OCDE tem a dizer a respeito da política monetária americana:

Nos Estados Unidos, onde alguns indicadores de longo prazo para as expectativas de inflação apresentaram aumento e o mercado de trabalho se estabilizou antes do esperado, o início da normalização (com isso eles querem dizer o aumento dos juros) não deve ser adiado para além do último trimestre de 2010. A taxa de juros referencial deve estar consideravelmente próxima do ponto neutro até o final de 2011, mas o caminho que converge para a normalização total teria de ser percorrido num ritmo mais acelerado caso as expectativas de longo prazo para a inflação apresentem aumentos posteriores.

A OCDE quer que o Fed comece a aumentar os juros logo – nos próximos seis meses, ou antes – porque… bem, basta olhar para a previsão da própria OCDE. De acordo com ela, no quarto trimestre de 2011 – daqui a uma ano e meio – a taxa de desemprego ainda será de 8,4%. Enquanto isso, a inflação será de 1% – bem abaixo da meta implícita do Fed, de 2%. Acredito que a inflação será ainda mais baixa – o núcleo de inflação já está abaixo de 1%. Mas, mesmo levando-se em consideração a previsão da OCDE, qual poderia ser a razão para um aperto da política monetária no momento presente, quando a economia ainda dispõe de vasto excesso de capacidade e apresenta uma inflação baixa demais ao fim do ano?

A única explicação parece estar no começo do trecho citado: o relatório sugere que certas pessoas estão começando a achar que pode haver inflação, e apesar de nossas previsões indicarem que elas estão erradas, como vemos, precisamos afastar essa ameaça fantasma e desacelerar a recuperação da economia… O quê?

O mais assustador em tudo isso é que a OCDE virtualmente define o senso comum; a organização é do tipo que trabalha por meio de cartas marcadas, em que um comitê precisa assinar cada documento, policiando as nuances, como se diz. O que podemos perceber a partir de tudo isso é que, entre pessoas razoáveis, a ideia de que devemos prejudicar a recuperação para aplacar aqueles que temem uma eventual inflação futura – apesar da ausência de indícios nesse sentido – se transformou em senso comum – tão comum que é tratado como evidente por si mesmo.

Isso é realmente muito ruim.

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