Invencionices

Paul Krugman

23 de agosto de 2010 | 16h33

De acordo com a Bloomberg, as argumentações de Raghuram Rajan são agora mais específicas: ele quer que Bernanke aumente a taxa básica de juros do Fed em 200 pontos-base diante de um desemprego de 9,5% e de uma inflação inferior a 1%.

Tentarei explicar o que é que me incomoda nesse tipo de coisa, além do fato de isso representar um completo desastre para a economia: o problema é que Rajan e muitos outros economistas parecem inventar novas doutrinas para atender à necessidade de justificar seus preconceitos em relação às medidas econômicas.

Sou totalmente favorável às ideias inovadoras. Mas sou da opinião de que os comentários feitos a respeito da política econômica em qualquer momento devem ter como base algum tipo de modelo – que deve ser válido também para outras situações, e não apenas um exemplo pontual empregado para justificar o favorecimento a uma medida específica no contexto presente.

Os comentários que fiz ao longo desta crise tiveram como base o mesmo modelo de política macroeconômica que costumo usar em períodos de normalidade; o detalhe é que estamos numa situação diferente. A versão rápida e mal-acabada se assemelha ao seguinte:

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Ou seja, mantidos constantes os demais fatores, quanto maior a demanda, menor a taxa real de juros. Será que alguém quer contestar isso? Mas, no momento, graças às consequências da crise financeira, mesmo um juro nominal equivalente a zero, que representa um juro real minimamente negativo, não seria baixo o bastante para proporcionar o pleno emprego.

Em tempos normais, quando o limite inferior zero não representa um impedimento, este paradigma básico sugere que a política monetária convencional seria capaz de desempenhar o papel chave na estabilização. Assim, em tempos normais, sou totalmente a favor de que o Fed assuma o trabalho de administrar o ciclo econômico, propondo uma política fiscal focada no longo prazo.

Mas, no momento, estamos diante do limite inferior zero; e isso muda tudo.

A ideia de que seria bom se pudéssemos elevar as expectativas de inflação emana desse paradigma minimalista: a economia “quer” um juro real negativo, e a única maneira de proporcionar isso – levando-se em consideração o limite inferior zero – é ter uma expectativa de inflação positiva.

A defesa da expansão fiscal também decorre quase diretamente desta argumentação: se não podemos reduzir o desemprego por meio de cortes nos juros, os gastos deficitários – que não sufocam o gasto do setor privado quando os juros são mantidos – se tornam uma maneira de mobilizar recursos desempregados.

O importante é que não estou inventando isso conforme me convém; tenho uma opinião consistente, que no momento produz resultados pouco ortodoxos simplesmente porque nos encontramos numa situação incomum.

E qual é o modelo seguido por Rajan? Qual é a justificativa para elevar os juros reais diante de um alto desemprego? Como este modelo funcionaria em tempos normais?

Me parece, obviamente, que muitos daqueles que defendem um aperto monetário partem de um preconceito – eles simplesmente detestam a ideia de dinheiro fácil – e depois procuram algum argumento para defender o próprio preconceito. E não é assim que se faz economia.

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