Jean-Claude e os Invisíveis

Paul Krugman

23 de julho de 2010 | 16h50

Um dia desses alguém vai escrever uma continuação para o livro Os Donos do Dinheiro, de Liaquat Ahamed; esta obra é sobre os homens que ajudaram a Grande Depressão a acontecer, e Os Donos do Dinheiro: A Próxima Geração será a respeito daqueles que ajudaram a transformar a crise financeira de 2008 numa década perdida de alto desemprego e deflação.

E Jean-Claude Trichet certamente será um dos personagens principais.

A coluna dele publicada no Financial Times de hoje é quase uma caricatura do gênero da austeridade. A explicação de Trichet segundo a qual deveríamos temer os justiceiros invisíveis do mercado de títulos seria cômica se as suas consequências não fossem tão graves:

Em períodos excepcionais, a economia pode se ver mais próxima de fenômenos não-lineares, como uma rápida deterioração na confiança entre amplos segmentos da sociedade, como lares, empresas, poupadores e investidores. No meu entendimento, uma grande maioria dos países industrializados se encontra agora navegando por estes mares desconhecidos, situação na qual a confiança está potencialmente em jogo. Sob tais circunstâncias, a consolidação é fundamental.

Pergunte a si mesmo, quais são as provas apresentadas por ele no trecho acima? Nenhuma: a realidade é que, basicamente, os mercados de títulos não demonstram o menor sinal de preocupação. A qual modelo ele está se referindo? Nenhum; a vaga referência a “fenômenos não-lineares” é um indício de que a argumentação não se sustenta. Assim, em que devemos nos basear para comprovar a sentença definitiva de que “a consolidação é fundamental”? No “entendimento” de Trichet, segundo o qual “a confiança está potencialmente em jogo”. É esta a base para uma política econômica que afeta centenas de milhares de trabalhadores?

Enquanto isso, não sei se estou enxergando além da conta, mas Trichet parece estar recuando um pouco em relação à afirmação de que a contração fiscal seria uma política de expansão – talvez porque as supostas provas por trás desta afirmação tenham sido extensamente desmentidas, e aqueles que analisaram a sugestão com seriedade perceberam que todos os exemplos citados envolviam um boom nas exportações, uma queda acentuada nos juros, ou ambas as coisas, tornando-os irrelevantes para a situação em que nos encontramos.

Mas agora a mensagem se sustenta sozinha, sem depender de teorias e nem de provas: austeridade já, agora, imediatamente.

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