Lucy e o futebol americano

Paul Krugman

20 de abril de 2010 | 18h17

O Talking Points Memo diz que os democratas estão em grande parte despreparados para a possibilidade de os republicanos fazerem obstrução na tramitação da reforma do setor financeiro.

Será mesmo possível? Temo que sim. As conversações que tive com funcionários do governo nas últimas semanas me deixaram a sensação de que estavam seguros de que a FinReg não será como a reforma da saúde – e de que aparentemente não estão levando a sério os que (como eu) acham que estão se considerando demasiado seguros.

Tenho uma teoria a esse respeito. Minha opinião é que os assessores de Obama olharam as pesquisas de opinião, segundo as quais o público está esmagadoramente a favor da adoção de medidas rigorosas em Wall Street, e pressupõem que o Partido Republicano não ousará colocar entraves.

Entretanto, parece-me que eles ainda não aprenderam, nem mesmo agora, que a direita tem uma extraordinária capacidade de criar sua própria realidade: que Mitch McConnell e companhia colocarão, sim, entraves à reforma, embora afirmem que estão contra Wall Street.

Tampouco podemos contar com a possibilidade de o público se dar conta da verdade. A convenção da imprensa da boataria torna, entre outras coisas, surpreendentemente fácil a absorção da mais óbvia hipocrisia.

Para ser bem claro: o que ocorre é uma espécie de coisa tribal (e não quero dizer necessariamente raça, embora seja parte disso). Os da direita radical conseguiram convencer um grande número de americanos de que isso é formado de pessoas como eles, enquanto os progressistas são pessoas estranhas e indignas de confiança; diante dessa situação, os argumentos racionais não influem muito.

Para quebrar isso, são necessárias campanhas duras e diretas e slogans simples. E, mais uma vez, tenho a sensação de que a equipe de Obama recorrerá ao seu trabalho capilar. Esperemos que ela me demonstre que estou errado.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.