Mario e a fada da confiança

Paul Krugman

14 de dezembro de 2011 | 15h40

Um artigo pessimista do Financial Times afirma, entre outras coisas, o seguinte:

Mario Monti, cujo governo tecnocrático tomou posse depois que a crise da dívida da Itália derrubou o veterano primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, pretende tratar de níveis de endividamento público correspondentes a 120% do Produto Nacional Bruto (PIB), mas encontra a resistência dos sindicatos e dos inimigos políticos.

“Confiamos em que os mercados reagirão de maneira positiva aos esforços que a Itália está empreendendo, talvez não amanhã; em todo caso, a redução dos custos dos empréstimos que prevemos nos próximos meses ajudará a estimular a economia”, disse Monti aos parlamentares na noite de terça-feira.

Acho que, hoje, na Europa, o termo “tecnocrático” é sinônimo de “ilusório”.

Vejamos: uma maior austeridade não irá convencer os mercados de que a situação da Itália é boa, e muito menos cortes de juros que permitam transformar uma política baseada na contração numa política voltada para a expansão. Na realidade, a austeridade – principalmente se não for acompanhada por importantes mudanças políticas em Frankfurt – provavelmente terá efeitos destrutivos, porque afetará a economia italiana em lugar de contribuir para melhorar o quadro do orçamento no curto prazo.

A Itália enfrenta uma crise imediata de pânico, e um enorme problema de ajustes no médio prazo, ao tentar fazer com que custos e preços voltem a se alinhar com os dos principais países da Europa. A única maneira plausível de resolver estes problemas se dará muito mais mediante uma política mais liberal do Banco Central Europeu (BC), na forma de compras de títulos agora, e de uma disposição implícita (mas perfeitamente entendida) a permitir que a inflação suba um pouco durante um extenso período.

A história com a qual os otimistas embalavam a si mesmos era que todo este negócio de austeridade é necessário para garantir o BCE a fim de que a instituição faça o que tem de ser feito. Mas tudo isto agora parece uma utopia: os tecnocratas iludidos da Europa aparentemente ainda acreditam que mais uma volta do parafuso da austeridade conseguirá a façanha.

Martin Wolf resume muito bem o que isto quer dizer:

Em palavras simples, a moeda única passará a representar quedas do valor dos salários, de deflação da dívida e de prolongadas crises econômicas. Será que isto persistirá, por maiores que sejam os custos de um colapso?

A resposta é não.

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