Mentiras deslavadas sobre o crescimento

Paul Krugman

25 de maio de 2010 | 16h34

Scott Sumner diz que estou equivocado em relação aos impostos, à regulação e ao crescimento, pois, apesar de o crescimento americano ter diminuído de ritmo desde a desregulação e tudo o mais, esse crescimento foi melhor do que o esperado.

Podemos tentar determinar até que ponto isso é verdadeiro – mas, seja como for, tal crítica não é uma resposta à minha argumentação original. Aquela abordava a afirmação de que a economia dos Estados Unidos encontrava-se estagnada até que Reagan pôs fim às prejudiciais medidas que fizeram parte do New Deal – afirmação que, apesar de muito popular entre a direita, é simples e absolutamente falsa. A era dos sindicatos fortalecidos, dos salários mínimos elevados, das altas alíquotas marginais, etc., foi também um período de rápido crescimento e acelerada melhoria no padrão de vida. Isso não é prova de causalidade, mas uma refutação do popular dogma segundo o qual essas características seriam invariavelmente devastadoras para a economia. E é notável que tantos da direita tenham apagado da história toda a geração do pós-guerra.

Levando-se tudo isso em consideração, o que podemos aprender a partir do fato de, após um substancial declínio anterior, o PIB per capita relativo dos EUA ter se mantido mais ou menos o mesmo desde 1980? Bem, não se trata de uma história simples. Parte da resposta é a seguinte: nossos 30 anos de declínio relativo após a 2ª Guerra Mundial refletiram principalmente o avanço tecnológico de outros países, que durante esse período tentaram alcançar o nível dos EUA; esse processo estava no fim quando chegou a década de 1980 e o nível tecnológico dos países desenvolvidos tinha se tornado relativamente homogêneo, não havendo portanto motivo para esperar um crescimento mais rápido na Europa e no Japão.

Há também uma questão que envolve as escolhas feitas na relação entre trabalho e lazer. Nos anos 1970, a tendência de longo prazo segundo a qual os ganhos de produtividade eram revertidos em jornadas de trabalho mais curtas chegou ao fim nos EUA, mas prosseguiu em outros países. Pode-se debater qual seria o significado disso, mas é importante compreender que boa parte da diferença entre o PIB americano e o europeu reflete essa escolha. A França, em especial, é um país que conta com níveis de tecnologia e produtividade próximos daqueles verificados nos EUA, mas apresenta um PIB per capita 25% menor do que o americano; isso se traduz principalmente em férias mais longas e em aposentadorias antecipadas – o que pode ser considerado ruim ou não, mas não representa um caso claro de desempenho inferior.

Mas, voltemos à questão original: tudo isso começou com a suposição comum de que a economia americana era um fracasso até a chegada de Reagan. De acordo com a doutrina, isso deveria ser verdade – e, assim, é essa a versão dos fatos na qual as pessoas acreditam, apesar de as coisas não terem de fato ocorrido dessa forma.

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