Metas inflacionárias na Europa

Paul Krugman

19 de janeiro de 2011 | 16h21

Jean-Claude Trichet voltou a fazer advertências sérias a respeito da inflação – uma péssima notícia para a periferia da Europa. Tentarei explicar o porquê usando um exemplo típico.

Imaginemos uma zona do euro que tenha apenas dois países, Alemanha e Espanha. Vamos então considerar dois pressupostos: em primeiro lugar, a economia da Alemanha tem três vezes o tamanho da economia da Espanha, portanto a inflação alemã é 3/4 do índice geral, enquanto a inflação da Espanha é 1/4; em segundo lugar, acontecimentos passados fizeram com que salários e preços na Espanha ficassem 20% mais elevados em relação aos da Alemanha.

Agora, suponhamos que se pretenda fazer com que preços e salários relativos voltem a se alinhar ao longo de 5 anos. Como será possível? Bom, de uma maneira ou de outra será preciso que, nesse período, a inflação alemã seja 4 pontos porcentuais mais elevada do que a inflação espanhola.

Portanto, consideremos duas hipóteses: na primeira, A, temos uma inflação de 2% na Alemanha e uma deflação de 2% na Espanha. O que implica uma taxa inflacionária geral na zona do euro de 1%. Na segunda, B, temos uma inflação alemã de 4% e inflação zero na Espanha, o que implica que a inflação na zona do euro é de 3%.

Em um mundo sem atritos, não importaria qual das duas hipóteses se realizasse. Mas, na realidade, a hipótese A, a de uma inflação baixa, é muito pior para a Espanha – por duas razões. Em primeiro lugar, é muito mais difícil ter uma deflação do que simplesmente ter preços estáveis; portanto a hipótese A implica um desemprego muito maior. Em segundo lugar, como a dívida espanhola é em euros, a hipótese A implica um ônus da dívida significativamente maior.

Então, o que vemos é o Banco Central Europeu atendendo ao desejo da Alemanha de uma inflação baixa, tornando em contrapartida muito mais difícil tratar dos problemas das economias periféricas.

A coisa vai ficar feia.

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