Não chore por Wall Street

Paul Krugman

23 de abril de 2010 | 20h35

O presidente Barack Obama foi a Manhattan na quinta feira e, em seu discurso, pediu insistentemente a uma plateia vinda principalmente de Wall Street que apoiasse a reforma financeira. “Acredito”, declarou ele, “que no fim estas reformas beneficiarão não apenas o país, mas também o setor financeiro”.

Bem, seria melhor se ele não tivesse dito nada do tipo. O fato é que Obama deveria se esforçar para fazer aquilo que é certo para o país – e ponto final. Se os banqueiros saírem prejudicados neste processo, tudo bem.

Mais do que isso, prejudicar os banqueiros deveria ser um dos propósitos da reforma. Um número cada vez maior de analistas sugere que o crescimento excessivo da indústria financeira está prejudicando a economia como um todo. A redução das dimensões dessa indústria supercrescida não vai agradar Wall Street, mas o que é ruim para Wall Street pode ser bom para o país.

As propostas de reforma em debate – as quais eu apoio – podem acabar beneficiando a indústria financeira, além do restante de nós. Mas isso se deve ao fato de abordarem apenas parte do problema: tornariam as finanças mais seguras, mas talvez não sejam suficientes para encolher o setor financeiro.

O que há de errado nas finanças? Para começar, a indústria financeira moderna produz lucros gigantescos e contracheques gordos, mas são poucos seus benefícios concretos. Lembram-se do filme Wall Street – Poder e Cobiça, de 1987, no qual o personagem Gordon Gekko declara que a ganância é boa? De acordo com os critérios contemporâneos, Gekko seria considerado mesquinho.

Nos anos imediatamente anteriores à crise de 2008, a indústria financeira correspondia a um terço do produto doméstico total – proporção duas vezes maior do que a de duas décadas antes.

A justificativa que nos foi oferecida para tais lucros estava na ideia de que a indústria estaria beneficiando a economia. Ela canalizava o capital para usos produtivos; diluía o risco; fortalecia a estabilidade financeira. Nada disso se mostrou verdadeiro. O capital não foi canalizado para os inovadores responsáveis pela criação de empregos, e sim para uma insustentável bolha imobiliária; em vez de diluído, o risco foi concentrado; e, quando a bolha imobiliária estourou, o supostamente estável sistema financeiro implodiu, e tivemos como efeito colateral o pior declínio econômico global desde a Grande Depressão.

Mas por que os banqueiros ganharam tanto dinheiro? Minha interpretação, refletindo os esforços dos economistas financeiros para compreender a catástrofe, é que a coisa toda envolveu principalmente apostas com o dinheiro alheio.

E quanto aos tão alardeados benefícios da inovação financeira? Concordo com os economistas Andrei Shleifer e Robert Vishny, que num estudo recente dizem que a inovação se restringiu à criação de uma ilusão de segurança, proporcionando aos investidores “falsos substitutos” para ativos antiquados, como os depósitos bancários. No fim, a ilusão caiu por terra – e o resultado foi uma desastrosa crise financeira.

E o mais estranho é que, depois de serem duramente atingidos na sequência imediata da crise, os lucros da indústria financeira já voltaram às alturas. Parece muito provável que a indústria logo volte a jogar os mesmos jogos que nos deixaram nesta situação.

E o que deve ser feito? Como já disse, apoio as propostas de reforma do governo Obama e seus aliados. Entre outras coisas, seria uma vergonha testemunhar o sucesso da campanha antirreforma dos líderes republicanos – marcada por desonestidade e hipocrisia.

Mas essas reformas deveriam ser apenas o primeiro passo. Precisamos reduzir as dimensões da indústria financeira. E isso não é dito apenas pelos críticos de fora (não que haja algum problema com os críticos de fora da indústria, que se mostraram muito mais corretos do que os supostamente sábios membros da indústria; como Alan Greenspan, por exemplo).

Uma proposta intrigante está prestes a ser revelada pelo mais improvável dos participantes: o Fundo Monetário Internacional. Num estudo preparado para uma reunião deste fim de semana, o fundo pede a criação de um Imposto sobre Atividade Financeira, que incidiria sobre a remuneração e os lucros da indústria financeira. fundo diz que um imposto desse tipo poderia “desencorajar riscos excessivos”. Poderia também levar a uma “tendência de redução nas proporções do setor financeiro”, coisa que o fundo considera positiva.

Na verdade, a proposta do FMI é relativamente amena. Ainda assim, se der sinais de que pode se tornar realidade, Wall Street protestará. Mas o fato é que já devotamos muito de nossa riqueza e talento a um setor que projetava e vendia complexas maquinações financeiras, que apresentam a desagradável tendência de arrasar a economia. Para acabar com essa situação, teremos de prejudicar a indústria financeira. E daí?

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

(Artigo publicado no New York Times no dia 23/04/2010)

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