O euro achatado

Paul Krugman

22 de junho de 2012 | 19h25

Minha participação no blog continua limitada. Mas pensei em postar um texto a respeito de algo que me surpreendeu um pouco.

Enquanto acompanhamos a bagunça envolvendo o euro, existe uma forte tendência de enxergar a situação como associada às desigualdades fundamentais na produtividade geral e no desenvolvimento econômico entre os membros da zona do euro – países atrasados e semidesenvolvidos como Grécia e Portugal (não é o que penso, mas é o que se diz) estranhamente ligados a potências como a Alemanha.

Assim, parece chocante observar

Documento

(pdf) mostrando o PIB real per capita (ou a produtividade, que apresenta quadro semelhante). É verdade que Grécia e Portugal são relativamente pobres, apresentando PIB per capita de 82% e 71%, respectivamente, da média da UE; isto equivale a aproximadamente 76% e 71% da média da zona do euro, já que os países desta zona são em geral mais ricos do que a UE como um todo. Enquanto isso, o PIB per capita da Alemanha equivale a 120% da média da UE, ou 112% da zona do euro.

Mas esta situação não chega a ser diferente daquilo que ocorre nos Estados Unidos (procure em PIB per capita). O Alabama tem PIB per capita equivalente a 74% da média americana; o Mississippi, 67%; e os estados da Nova Inglaterra e da costa do Atlântico, 118% e 116%, respectivamente.

Em outras palavras, em se tratando de desigualdades econômicas subjacentes, a zona do euro não está em situação pior do que os EUA.

A principal diferença está no fato de pensarmos nos EUA como um país, aceitando normalmente medidas fiscais que transferem rotineiramente grandes somas para os estados mais pobres sem que isto se torne uma questão regional – na verdade, os estados que recebem ajuda costumam votar nos republicanos e acreditar na própria autossuficiência.

Mas o fato é que os americanos não se enxergaram sempre como um mesmo país. Antes da Guerra de Secessão, os habitantes falavam “nestes Estados Unidos”; foi somente após a guerra que o “nestes” se converteu em “nós”.

Assim, a chave para o sucesso da zona do dólar pode ser resumida em três palavras: William Tecumseh Sherman.

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