O governo não é estúpido

Paul Krugman

28 Janeiro 2010 | 17h45

Quando as pessoas me perguntam o que acho do governo Obama, minha resposta é rápida: os homens no governo não são estúpidos e não são maus, o que representa um enorme avanço.

E não abro mão dessa posição. Mas é triste que aparentemente eles sintam a necessidade de se fingir de estúpidos.

As famílias de todo o país apertam o cinto e são obrigadas a tomar difíceis decisões. O governo federal deveria fazer o mesmo. (Aplausos.) Portanto, esta noite, estou propondo medidas específicas para pagar o trilhão de dólares que foram necessários para salvar a economia no ano passado.

A partir de 2011, estaremos prontos para congelar os gastos oficiai por três anos. (Aplausos.) Os gastos relativos à segurança nacional, ao Medicare (assistência médica dos idosos), ao Medicaid (assistência médica para pessoas de baixa renda) e à Seguridade Social não serão afetados. Mas todos os outros programas discricionários do governo serão.

Como toda família em dificuldades financeiras, trabalharemos dentro de um orçamento específico para investir no que for preciso, sacrificando o que não for preciso. E, se eu tiver de adotar essa disciplina fazendo uso do veto, vetarei. (Aplausos.)

Foi exatamente isso que John Boehmer disse no ano passado. Boehmer afirmou que os americanos querem que o governo imponha a si mesmo o aperto financeiro que eles foram obrigados a adotar: “Está na hora de o governo apertar seu cinto e mostrar ao povo americano que nós ‘entendemos’.”

Na época, foi uma coisa estúpida, assim como é estúpida agora. O que salva é que os funcionários do governo sabem muito bem; eles estão plenamente conscientes de que o congelamento dos gastos não fará nenhuma diferença para a perspectiva do orçamento no longo prazo. Esta é apenas uma maneira de agradar ao público preconceituoso e/ou aos democratas de centro no Senado.

Mas é uma demonstração espetacular de que Obama não consegue mudar o seu discurso. Não só está aceitando a visão de mundo geral dos republicanos, como está imitando seus ataques obtusos à sua própria política.