O núcleo da lógica

Paul Krugman

26 de fevereiro de 2010 | 17h43

Já que resolvi fazer uma pausa na tarefa de retirar a neve do quintal, pensei em aproveitar alguns minutos para abordar uma questão que parece confundir muitos: a ideia do núcleo da inflação. Por que precisamos de um conceito como este? Como ele deve ser medido?

Vamos lá: o núcleo da inflação é habitualmente medido quando excluímos o alimento e a energia do índice de preços; mas há medidas alternativas, como as médias aparadas e a inflação média, que têm recebido cada vez mais atenção.

Primeiro, deixe-me esclarecer alguns equívocos. O núcleo da inflação não é usado para coisas como o cálculo do ajuste no custo de vida feito pela Previdência Social; isso é determinado por meio do IPC comum.

E as pessoas que dizem coisas como “trata-se de uma ideia estúpida – gastamos dinheiro com alimento e gasolina, e por isso esses artigos não devem ser excluídos dos índices de inflação” não estão entendendo o objetivo do conceito. O núcleo da inflação não foi pensado para medir o custo de vida, mas para medir algo diferente: a inércia da inflação.

Pense no seguinte. Na economia, alguns preços flutuam o tempo todo de acordo com a oferta e a demanda; o alimento e o combustível são os exemplos mais óbvios. Entretanto, muitos preços não flutuam dessa maneira – são definidos por um oligopólio de empresas, ou negociados em contratos de longo prazo e, portanto, são revisados somente em intervalos que variam de meses a anos. Muitos salários são determinados da mesma forma.

O mais importante a respeito desses preços menos flexíveis – a percepção que rendeu a Ned Phelps o seu Nobel – é que, pelo fato de não serem revisados com muita frequência, eles são estabelecidos levando-se em consideração a inflação futura.

Suponhamos que vou estabelecer meu preço para o ano que vem, e espero que o nível geral dos preços – incluindo dados como o preço médio de artigos concorrentes – suba 10% ao longo do ano. Isso me levaria a estabelecer um preço aproximadamente 5% mais alto do que se fossem levadas em consideração apenas as condições atuais.

E não é tudo: por serem revisados apenas em intervalos regulares, os preços temporariamente fixados incorporam muitas vezes uma equiparação quando são redefinidos. Novamente, suponha que eu estabeleça meus preços uma vez ao ano, e a inflação anual esteja em 10%. Assim sendo, quando eu redefinir meus preços, eles provavelmente estarão 5% abaixo do que “deveriam” ser; acrescentando esse efeito à antecipação da inflação futura, eu provavelmente aumentarei meu preço em 10% – mesmo que oferta e demanda estejam mais ou menos equilibradas no momento.

Agora imagine uma economia na qual todos fazem isso. Isso nos diz que a inflação tende a perpetuar a si mesma, a não ser que haja um grande excesso de oferta ou demanda. Em especial, quando a expectativa de uma inflação persistente de, digamos, 10% torna-se “incorporada” à economia, é necessário um grande período de ociosidade – anos de desemprego alto – para reduzir esta taxa. Um caso exemplar foi a extremamente cara desinflação do início da década de 1980.

Agora, a questão da medida: é bom acompanhar esse tipo de inércia da inflação, tanto nos seus aspectos positivos como nos negativos, porque é difícil livrar-se da inflação incorporada, e o mesmo pode ser dito da deflação incorporada (basta perguntar aos japoneses).

Mas, no mundo real, enquanto alguns (muitos) artigos se comportam dessa maneira, outros não o fazem: seus preços aumentam rapidamente com as mudanças na oferta e na procura, e não mostram a inércia. Assim, precisamos de uma medida que isole a informação do ruído, chegando à porção inercial da questão.

A medida padrão tenta fazer isso por meio da exclusão dos preços não inerciais mais óbvios: alimento e energia. Mas será que eles são tudo? Claro que não – e as medidas padrão do núcleo da inflação têm se comportado de maneira errática ultimamente. Daí a preferência crescente entre os economistas por medidas como a inflação média e as médias aparadas, que excluem os preços de maior variação mensal, supostamente isolando assim os preços de variação mais lenta, que são os que queremos analisar.

Essas medidas mostram que está em andamento um processo de desinflação que poderia, num momento não muito distante, se transformar numa franca deflação:

coredeflate.png

Japão, lá vamos nós.

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