Os curiosos matizes políticos da imigração

Paul Krugman

26 de abril de 2010 | 18h13

Apenas um comentário rápido: minha interpretação política da imigração indica que a questão divide ambos os partidos, mas de maneiras diferentes.

Os democratas se encontram divididos individualmente (situação na qual eu também me encontro). Por um lado, eles acreditam em ajudar os necessitados, o que faz com que enxerguem os imigrantes com certa compaixão; além disso, são mais abertos à ideia de uma sociedade multicultural e multirracial. Quando olho para os mexicanos e centro-americanos de hoje, eles me parecem fundamentalmente iguais aos meus avós, que vieram aos Estados Unidos em busca de uma vida melhor.

No entanto, a imigração aberta não pode coexistir com uma sólida rede de bem-estar social; se a ideia é garantir o atendimento médico e uma renda decente para todos, esta oferta não pode ser global.

Assim sendo, os democratas têm sentimentos conflitantes em relação à imigração; na verdade, o tema chega a ser doloroso.

Os republicanos, por sua vez, se encontram divididos entre aqueles que amam a imigração e aqueles que a odeiam. A ala do partido ligada aos interesses empresariais gosta de empregados baratos (e adoraria poder recorrer a um imenso programa de trabalhadores convidados que proporcionasse funcionários baratos e ao mesmo tempo garantisse que estes fossem impossibilitados de votar e, na prática, também de participar de sindicatos). Mas os conservadores culturais/nativistas/tribais detestam ver em solo americano essas pessoas tão alienígenas.

Assim sendo, a imigração é um tema que provoca divisões entre os republicanos, e não dentro do coração de cada um deles individualmente.

Durante muito tempo, o Partido Republicano foi essencialmente guiado pelos interesses empresariais, tapeando a direita cultural; em 2004, Bush se candidatou como aquele que defenderia o país do casamento gay terrorista, e logo em seguida anunciou que a eleição lhe conferia poder para… privatizar a previdência social.

Mas acho que o verdadeiro significado do movimento Tea Party está na ideia de que os interesses empresariais perderam o controle; a base, com seus temores em relação ao Outro, escapou da tutela. E a súbita erupção anti-imigração faz parte desse fenômeno.

Os democratas acham que isso lhes proporciona uma abertura. Não estou tão certo disso, e penso que essa abertura não se dará em 2010. Mas, de fato, somos obrigados a pensar que, no longo prazo, se o Partido Republicano se transformar no partido dos brancos furiosos e descontrolados – em oposição aos brancos furiosos controlados pela elite empresarial -, seu futuro não será nada brilhante.

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