Os Estados Unidos não são a China

Paul Krugman

18 de outubro de 2010 | 14h30

Em vários comentários e em outros lugares, ouço sempre pessoas compararem as queixas dos europeus a respeito do dólar fraco às queixas dos americanos por causa do yuan subvalorizado. É uma comparação equivocada, o que deveria ser óbvio se você pensar nos fundamentos desta situação.

O que os Estados Unidos estão utilizando é uma estratégia monetária expansionista para fazer frente à crise de sua economia e às ameaças de deflação; o que mais se poderia esperar que fizéssemos? Agora, um dos efeitos desta política, se não for acompanhada por determinadas medidas no exterior, é o dólar mais fraco – mas não é este o seu objetivo.

Além disso, o efeito geral do afrouxamento quantitativo nos EUA é expansionista para a economia global como um todo: expansionista nos EUA, e ambíguo para o restante do mundo. (Ambíguo por produzir dois efeitos: o dólar mais fraco tende a reduzir o déficit comercial americano, por outro lado, o fortalecimento da economia americana tende a aumentar o déficit, com um efeito total incerto.)

Agora, vejamos a situação da China. A China não está lutando contra uma deflação – está lutando contra a inflação, portanto a desvalorização do yuan precisa ser acompanhada internamente por medidas de restrição ao crédito. (A China pode separar a política cambial da política monetária interna porque adota controles de capital.) O efeito geral da medida é pois reduzir, e não aumentar, a demanda mundial – e o efeito para as economias estrangeiras é evidentemente negativo.

As várias estratégias não são absolutamente comparáveis.

E o argumento de que os EUA podem contrabalançar qualquer efeito decorrente da política da China com um afrouxamento monetário? Na realidade, não entendo por que alguns comentaristas não compreendem a distinção entre a frase “vale a pena tentar o afrouxamento quantitativo, que provavelmente ajudará”, e a frase “o afrouxamento quantitativo permitirá que o Fed faça o que for necessário, independentemente de o juro estar próximo de zero”. Assino embaixo da primeira, mas não da segunda. E como o AQ pode ser útil, porém inadequado, o superávit artificial da China aumenta o déficit.

Portanto, mais uma vez, o Fed caminha na direção certa, tanto para os interesses americanos, quanto do mundo como um todo. A China está empobrecendo seus vizinhos, o que no caso significa todos os outros.

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