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Os eurocéticos

Paul Krugman

29 de dezembro de 2010 | 16h15

Belo artigo o do Landon Thomas que chega quase a justificar a atitude dos eurocéticos. Mas para se ter uma ideia mais clara do contexto, é preciso conhecer um pouco mais sobre os argumentos apresentados.

Na realidade, uma maneira correta de analisar este tema é mediante a leitura de um ensaio um tanto embaraçoso. Escrito por Jonung e Drea e publicado há um ano, o estudo zomba dos ingênuos economistas americanos (eu incluído) que duvidavam do projeto do euro.

O que está por trás dessas dúvidas? Pessoas como eu e como Barry Eichengreen – que se esforçaram mais do que qualquer outra para transformar argumentos abstratos em pesquisa quantitativa – consideraram o euro em termos da teoria da “área monetária ótima”. Segundo esta teoria, a adoção de uma moeda comum implica benefícios e custos. O benefício é a redução dos custos dos negócios; quanto ao custo, é mais difícil fazer com que seus custos e preços voltem a se alinhar depois de “choques assimétricos” – as expansões e crises que afetam certos países em uma união monetária, mas não outros.

É difícil quantificar os benefícios e os custos, mas é possível observar alguns indicadores. Se a criação de uma moeda comum produz benefícios consideráveis, é de se esperar que ela levará a um grande aumento do comércio. Ao mesmo tempo, os custos de difícil ajuste dependerão do grau de ajuste que é preciso fazer. O ônus é reduzido quando a mão de obra é extremamente móvel entre as regiões em expansão e as que estão em crise (o ponto de Mundell), e quando há integração fiscal (ideia defendida por meu colega Peter Keken), de maneira que o choque de uma crise local é parcialmente absorvido pela redução dos impostos pagos e pelo aumento das transferências de um governo central.

No início dos anos 90, vários economistas americanos tentaram avaliar a proposta do euro comparando a Europa ao melhor exemplo que temos de uma área monetária ativa de dimensões continentais, os Estados Unidos. E o que todos eles concluíram foi que a Europa ficava bem atrás dos EUA em termos de adequação, em razão de uma mobilidade muito menor da mão de obra e da falta de integração fiscal. Jonung e Drea resumem ists em tons hostis, como se se tratasse de uma ideia tola refutada pelos acontecimentos:

Resumindo, os economistas acadêmicos dos EUA sugeriam que, à luz da experiência histórica da união monetária e fiscal dos EUA, a Europa enfrentaria maiores problemas de ajustes.

Mas foi exatamente o que aconteceu.

E o que foi feito dos benefícios da integração monetária? Jeff Frankel tem um bom estudo a este respeito: o trabalho realizado antes da criação do euro fazia prever ganhos comerciais enormes, mas a experiência concreta tem sido bem mais modesta – não que não os tenha havido, mas nada que se compare às grandes expectativas que alguns alimentavam em relação ao euro.

Portanto, ficou evidente que a análise dos eurocéticos acadêmicos estava correta. O que não significa que o euro fosse um erro: afinal, existiam considerações de política econômica. E certamente não precisa significar que o projeto deva fracassar: se isto acontecer, terá um efeito extremamente desagregador.

Mas acho que de tudo isso é possível tirar uma lição, ou seja, que a simples análise econômica tem suas virtudes. Os entusiastas do euro enalteceram todo o processo e menosprezaram o enfoque banal referente aos custos e benefício de muitos economistas americanos. Entretanto, estes custos e benefícios eram importantes, assim como são importantes agora. E a crise que a Europa vive atualmente é na realidade muito semelhante à que as banais análises sugeriram que iria acontecer.

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