Os mercados podem se enganar – e como

Paul Krugman

30 de setembro de 2011 | 17h58

Muller, Mendelsohn e Nordhaus apresentaram um novo estudo na American Economic Review que deveria ser um fator importante na nossa maneira de debater a ideologia econômica. É claro que isso não vai ocorrer, mas permitam-me expor a ideia, seja como for.

Aquilo que MMN fazem é estimar o custo imposto à sociedade pela poluição do ar, e distribuí-lo de acordo com cada indústria. Por sinal, os custos calculados não incluem a ameaça de longo prazo da mudança climática; o foco são os impactos quantificáveis da poluição na saúde e na produtividade, sendo que os efeitos mais importantes envolvem a maneira com a qual os poluentes – em especial as pequenas partículas – afetam a saúde humana, e são usadas medições padronizadas de mortalidade e morbidez para transformar esta informação em dólares.

Mesmo levando-se em consideração esta visão restrita dos custos, eles descobrem que o custo da poluição do ar é grande, e se concentra principalmente em algumas indústrias. Na verdade, há algumas indústrias cujo dano infligido ao mundo sob a forma da poluição do ar supera o valor que estas mesmas indústrias acrescentam ao mercado.

É importante ser claro quanto ao significado deste dado. Isto não quer necessariamente dizer que devemos acabar com o uso da eletricidade gerada a partir do carvão. O que diz, na verdade, é que os consumidores estão pagando um preço baixo demais pela eletricidade gerada a partir do carvão, pois o preço pago não leva em consideração os imensos custos externos associados à sua geração. Se os consumidores fossem obrigados a pagar o custo total, eles usariam muito menos energia gerada a partir do carvão – possivelmente nenhuma, mas isto dependeria das alternativas.

Num certo nível, estamos falando de ciência econômica elementar. Fatores externos como a poluição são uma das formas clássicas de falha do mercado, e o primeiro semestre da faculdade de economia nos ensina que esta falha deve ser remediada por meio de impostos aos poluidores ou autorizações pagas de emissão que ajudem a promover uma correção do preço. O que Muller e seus colegas estão fazendo é transformar em números esta proposta básica – e os números se mostram bastante expressivos. Assim sendo, aqueles que de fato acreditam na lógica do livre mercado deveriam ser favoráveis aos impostos sobre a poluição, certo?

 

Hahahahahaha. A direita americana contemporânea não acredita em fatores externos, nem em corrigir falhas do mercado; sua fé determina que não há falhas do mercado, que o capitalismo sem regulação está invariavelmente correto. Confrontados com as provas de que os preços de mercado estão de fato errados, eles simplesmente atacam a ciência.

O que isto nos diz é que não estamos participando de um debate envolvendo a economia. Nossos defensores do livre mercado não estão de fato trabalhando com um modelo do funcionamento da economia; aquilo que orienta a sua conduta é uma mistura de defesa covarde dos abastados contra os demais e fé mística na ideia de que interesses egoístas levam necessariamente ao bem comum.

Eles estão errados, e o preço deste erro é pago a cada inspiração.

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