Perdido (sobre Obama)

Paul Krugman

10 de fevereiro de 2010 | 17h26

Nesse caso, concordo com Simon Johnson: como é possível, a essa altura dos acontecimentos, que Obama se mostre tão perdido?

A mais recente manchete do site da Bloomberg contém trechos de uma entrevista concedida pelo presidente à Business Week, nos quais lemos o seguinte:

O presidente Barack Obama disse não estar “magoado” por causa da bonificação de US$ 17 milhões oferecida ao diretor executivo do banco JPMorgan Chase & Co., Jamie Dimon, e nem por causa dos US$ 9 milhões recebidos por Lloyd Blankfein, diretor executivo do Goldman Sachs Group Inc., destacando que alguns atletas recebem quantias ainda maiores.

O presidente, respondendo a uma pergunta feita durante a entrevista, disse que, apesar de US$ 17 milhões serem “uma quantia extraordinária” para os padrões do cidadão comum, “há jogadores de beisebol que ganham mais do que isso e nem sequer chegam à final do campeonato, e isso me choca da mesma maneira”.

“Conheço esses dois sujeitos; são executivos muito experientes e sensatos”, disse Obama em entrevista concedida ontem (terça-feira, 9) à Bloomberg Business Week no Salão Oval. A revista chega às bancas na sexta-feira. “Como a maioria dos americanos, não fico magoado com o sucesso ou a riqueza dos outros. São coisas que fazem parte do sistema de livre mercado.”

Obama buscava combater impressões segundo as quais seu governo seria contrário às empresas, elogiando a influência exercida pelos líderes corporativos na determinação de suas medidas econômicas. Ele planeja reiterar essa mensagem quando se reunir com a Business Roundtable – entidade que representa as lideranças de muitas das maiores empresas americanas – no dia 24 de fevereiro em Washington.

Meu. Deus. Do. Céu.

Primeiro, que eu saiba, o comportamento irresponsável de jogadores de beisebol não deixou a economia mundial à beira do colapso nem custou a milhões de americanos inocentes seus empregos e/ou imóveis.

Mais especificamente, a indústria financeira não foi apenas resgatada por meio do comprometimento do contribuinte; ela continua a depender do lastro do contribuinte para garantir sua estabilidade. Não é preciso acreditar em minhas palavras. As próprias agências de classificação de crédito o dizem:

A reforma planejada para a regulamentação financeira dos Estados Unidos levou a Standard & Poor’s a alertar na terça-feira que a classificação de crédito do Citigroup e do Bank of America poderia ser rebaixada em decorrência da possibilidade dessa reforma tornar menos provável que tais bancos sejam resgatados pelo contribuinte americano caso se vejam em dificuldades outra vez.

A questão é que esses banqueiros não são agentes independentes ganhando rios de dinheiro por meio da concorrência justa; eles administram empresas que são essencialmente parte do Estado. Não faltam motivos de indignação diante da aparência cada vez mais clara de que estamos vivendo num sistema de socialismo limonada, no qual os prejuízos são públicos e os lucros, particulares.

Seria de se esperar, no mínimo, que Obama compreendesse a importância de reconhecer a indignação do público diante do que está ocorrendo. Mas parece que não. Se acreditarmos na reportagem da Bloomberg, Obama pensa que a chave para o sucesso eleitoral é elogiar “a influência exercida pelos líderes corporativos na determinação de suas medidas econômicas”.

Estamos condenados.

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