Pesos, pirâmide financeira e lucros do setor financeiro

Paul Krugman

24 de abril de 2010 | 12h00

Uma interessante troca de comentários teve início com a minha sugestão – que nada tem de original – de que a estabilidade observada nos bancos entre 1935 e 1980, aproximadamente, teve muito a ver com a falta de concorrência, que conferiu aos bancos um valor de marca que os executivos não quiseram colocar em perigo com estratégias mais arriscadas.

Mike Konczal levanta uma questão importante: como conciliar a perda no valor de marca dos bancos e os imensos lucros do setor financeiro? E Ryan Avent oferece uma resposta possível: com um grande aumento na alavancagem. Tenho raciocinado mais ou menos neste sentido, com algumas diferenças.

Eis a minha abordagem para o tema: basicamente, a indústria financeira esteve captando empréstimos a juros baixos, e investindo os fundos em ativos de maior retorno. Mas por que estes ativos proporcionam lucros maiores? Acredito que em boa medida isto se deve ao “problema do peso” – um termo criado no refeitório dos alunos do MIT em meados dos anos 70, sem que ninguém saiba ao certo quem o inventou.

A observação que deu início à definição do termo estava no fato de, na época, o México ter uma taxa de câmbio fixa em relação ao dólar, mas os títulos da dívida mexicana produzirem retornos superiores em muitos pontos porcentuais aos proporcionados pelos títulos da dívida americana. Por quê? Supostamente porque era levada em consideração uma significativa possibilidade de desvalorização. Mas nenhum teste estatístico mostraria isto, por ser uma possibilidade remota que nem sequer tinha ocorrido ainda. Em vez disso, o cálculo numérico mostrava um ganho claro nos empréstimos tomados em dólares e concedidos em pesos.

Eu diria que foi isto o que a indústria financeira andou fazendo por muito tempo: tomando empréstimos por meio da emissão de ativos supostamente seguros, investindo os recursos em ativos que na verdade não apresentam rendimento maior, mas aparentam fazê-lo.

Mas por que ela conseguiu empréstimos tão baratos? Neste ponto acho que

estão no caminho certo: a inovação financeira criou ativos – principalmente valores mobiliários garantidos por ativos – que durante muito tempo foram falsamente vistos como seguros, e tiveram seu preço definido de acordo com esta percepção.

Mas o estudo parece não abordar o fato de que o acontecimento remotamente possível que revelou a falsidade destas percepções não foi exógeno. Em vez disto, o que ocorreu foi que o próprio crescimento do setor financeiro levou a uma tendência ascendente nos preços dos ativos que mascarou os riscos reais – a forma com a qual a bolha imobiliária mascarou os verdadeiros riscos dos empréstimos subprime é um exemplo fundamental, mas não é o único. Entretanto, mais cedo ou mais tarde, a bolha esgotaria o espaço de que dispunha para se expandir, e a coisa toda desabaria.

Não por acaso, isto lembra o funcionamento de uma pirâmide financeira. Em seu livro Exuberância Irracional, Bob Shiller destacou que uma bolha é, na prática, uma pirâmide financeira natural, que na verdade não precisa de uma fraude deliberada, mas produz o mesmo efeito.

Assim, eu diria que o que fizemos entre 1980 e 2008 foi substituir um sistema financeiro no qual os lucros eram criados pela falta de concorrência por um sistema no qual os lucros foram criados pela desinformação e por percepções equivocadas – uma pirâmide financeira gigantesca, apesar de em boa medida (não totalmente) acidental, que finalmente deu errado.

E, na ausência de uma reforma vigorosa, isso vai acontecer de novo.

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