Por que a Grã-Bretanha não está numa situação pior?

Paul Krugman

30 de abril de 2010 | 18h13

Várias versões do alerta “A Grã-Bretanha será a próxima Grécia!” circulam por aí; há um bom resumo delas no FT Alphaville. Entretanto, como eles destacam em sua página, os mercados de obrigações e CDS parecem não concordar:

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Assim sendo, será que a Grã-Bretanha vive uma situação diferente? Por quê?

Alguns dos números referentes aos orçamentos são amedrontadores: de acordo com a Eurostat, a Grã-Bretanha registrou no ano passado um déficit primário – ou seja, um déficit calculado sem levar em consideração o pagamento de juros – de 9,5% do PIB. A proporção supera os 8,5% registrados pela Grécia.

Contra isso, a Grã-Bretanha tinha uma dívida de “apenas” 68% do PIB, enquanto o endividamento da Grécia chega a 115% do PIB.

Mas a diferença mais importante está nas perspectivas econômicas. A recuperação da Grã-Bretanha não tem sido tão vigorosa quanto gostaríamos – mas a economia está crescendo e, já que a deflação parece improvável graças à taxa de câmbio flutuante, a Grã-Bretanha pode esperar um crescimento anual de vários pontos porcentuais no PIB nominal.

A Grécia, por sua vez, está presa na camisa de força do euro e provavelmente está condenada a anos de depressão na atividade econômica e à deflação; a S&P diz que o país não retomará o PIB nominal de 2008 antes de 2017, previsão que me parece otimista.

Para enxergar as implicações, imagine por um instante que tanto Grécia quanto Grã-Bretanha pagassem juros de 5% sobre suas dívidas, mas que a Grã-Bretanha tivesse uma previsão de crescimento de 3% no PIB nominal e a Grécia tivesse previsão de crescimento zero. Neste caso, a Grã-Bretanha precisaria de um superávit primário de 1,5% do PIB para estabilizar a proporção entre dívida e PIB; a Grécia precisaria de um superávit de 5,75%.

E isso não é tudo. A Grã-Bretanha pode esperar alguma redução “automática” em seu déficit primário decorrente da recuperação econômica; a Grécia não pode contar com isso.

E mais: a Grã-Bretanha pode compensar os efeitos depressivos da austeridade fiscal por meio de uma política monetária mais relaxada; a Grécia, não.

Tudo isso sugere que, apesar de a Grã-Bretanha enfrentar um ajuste difícil, ele está dentro das possibilidades do país; a Grécia, mesmo que ainda contasse com a confiança do mercado, enfrentaria um ajuste pelo menos duas ou três vezes mais severo. Naturalmente, a Grécia perdeu a confiança do mercado, transformando a situação numa espiral mortífera.

Assim sendo, a Grã-Bretanha não é a Grécia – principalmente porque ainda conta com sua própria moeda.

Realmente, o slogan de Gordon Brown deveria ser: “Ele nos manteve fora do euro.” E é isso que redime a situação.

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