Sombras e neblina

Paul Krugman

26 de outubro de 2010 | 16h23

Tenho encontrado certa dificuldade para escrever a respeito da questão das execuções hipotecárias; obviamente houve uma conduta ilegal generalizada por parte dos bancos (outra vez), mas o mais difícil é sugerir o que deve ser feito agora. Entretanto, uma coisa é certa: o principal argumento segundo o qual deveríamos ignorar a situação, evitando medidas como um congelamento temporário nas execuções hipotecárias, é um equívoco.

Estou me referindo ao argumento que defende o prosseguimento das execuções, independentemente das dúvidas, porque é importante fazer com que tais imóveis sejam confiscados e vendidos, para que possamos arrumar esta bagunça. Este é o argumento que os representantes do governo têm apresentado – e soa razoável para aqueles que não viram aquilo que de fato ocorre com os imóveis tomados por meio da execução da dívida do proprietário.

Pois a verdade é que um número impressionante destes lares e imóveis não vai para a venda: há um imenso “inventário das sombras” formado por imóveis que foram tomados pelos bancos, mas ainda não foram postos no mercado.

Se os financiadores das dívidas realmente desejassem que os imóveis fossem vendidos e os problemas solucionados, eles promoveriam vendas a descoberto: deixariam que os proprietários atuais vendessem seus lares pelo preço que conseguissem, entregando o valor obtido aos credores, e assunto encerrado. Há muitas vendas a descoberto por aí – mas há também muitos casos em que as vendas a descoberto têm sido recusadas, dando lugar a execuções hipotecárias.

O motivo oficial para a aversão às vendas a descoberto é o potencial para fraudes: o proprietário vende a casa a um preço barato para o seu primo. Mas será que é tão difícil policiar este tipo de comportamento, ao menos a ponto de evitar abusos mais grosseiros? Lembre-se que, para o credor, uma casa vendida por um preço baixo ainda é um negócio melhor do que uma casa que simplesmente não seja vendida.

Uma explicação alternativa para a preferência pelas execuções hipotecárias e a disposição de manter fora do mercado por longos períodos os imóveis confiscados está na ideia de que se trata de um jogo de prorrogação e fingimento: vendas a descoberto obrigariam os credores a reconhecer suas perdas, enquanto um imóvel desocupado obtido por meio da execução de dívidas pode ser mantido nos balanços contábeis com um valor irreal.

Se esta for a maneira correta de interpretar a situação, então a crise burocrática nos apresenta uma oportunidade para ajudar a reverter o colapso de um dos principais mercados da economia – uma oportunidade de persuadir os credores a aceitar as vendas a descoberto ou buscar acordos com os proprietários, e deter o estrago social provocado pelo inchaço deste inventário das sombras.

É uma oportunidade que, como de costume, estamos desperdiçando.

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