Terá o mundo atingido seu limite de produção?

Paul Krugman

24 de janeiro de 2011 | 15h49

Segundo Samuel Brittan, John Kemp sugere que o crescimento global está chegando ao limite na questão da oferta. De acordo com esta tese, embora um alto desemprego e uma inflação baixa possam predominar nas economias avançadas, o resto do mundo enfrenta uma aceleração da inflação, bem como uma alta dos preços das commodities. E, de fato, é exatamente esta a situação que estamos vivendo.

Mais questionável é a afirmação de que “o problema não está na demanda agregada, mas em sua distribuição”. Na realidade, trata-se de ambas as coisas. Vejamos o gráfico da produção industrial do World Trade Monitor; como trabalhei com o índice dezembro de 2005=100, é possível acompanhar a tendência dos últimos cinco anos. Eis o mundo:

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A produção recuperou o terreno perdido durante a recessão, mas ainda é apenas ligeiramente superior ao pico anterior, situando-se portanto bem abaixo de uma estimativa razoável de tendência.

Contudo, este quadro geral oculta uma acentuada divergência entre as economias avançadas e as emergentes:

worldprodae.jpg

As economias emergentes encontram-se bem acima do pico anterior e acompanham mais ou menos a tendência. As economias avançadas ainda estão bem abaixo da produção anterior à crise, sem falar na tendência anterior à crise. Portanto, não surpreende que estejamos percebendo pressões inflacionárias no Sul, mesmo que no Norte impere a desinflação.

Mas o que isso mostra é que, se a demanda agregada global fosse redistribuída, de maneira a ser atribuída na maior parte aos países avançados, poderíamos nos expandir ainda mais sem pressionar a capacidade global. E há uma maneira simples de fazer esta redistribuição da demanda: pela valorização das moedas dos mercados emergentes em relação às moedas dos países avançados. Entretanto, como as nações emergentes não estão dispostas a permitir que isto aconteça, elas se defrontam com pressões inflacionárias, mesmo que com isso as economias avançadas continuem deprimidas.

Kemp reconhece mais ou menos este fato, mas aparentemente acredita que um ajuste do câmbio empobreceria de certo modo os países avançados:

Enquanto as empresas não aumentarem significativamente a produtividade e principalmente a eficiência dos recursos, o remédio doloroso envolverá provavelmente o aumento da competitividade e a redução do padrão de vida em toda a América do Norte e Europa Ocidental (mediante uma combinação de inflação dos preços das commodities, um câmbio mais fraco, alta do preço das importações e queda dos salários reais e das rendas).

Seria realmente excessivo. As importações dos países avançados provenientes dos mercados emergentes continuam bem abaixo de 10% do Produto Interno Bruto (PIB); e mesmo que houvesse uma ampla desvalorização, seu efeito sobre as rendas reais seria limitado.

Consequentemente, os países avançados ainda têm muito espaço para crescer – e a inflação na China não influi neste fato.

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