finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

‘Congonhas não é da TAM e da Gol’, diz David Neeleman

Fundador da Azul diz que não vê problema em decisão do governo de dar espaço à companhia aérea no aeroporto de SP e subsídios para as empresas fazerem voos regionais

marinagazzoni

15 de setembro de 2014 | 05h35

Mesmo com economia brasileira em recessão técnica, o empresário David Neeleman, fundador da Azul, vislumbra uma fase de crescimento expressivo para sua companhia aérea. O otimismo de Neeleman se explica por uma série de oportunidades que está se abrindo para a Azul. A empresa vai começar a fazer voos internacionais, quer voar para pelo menos 20 novas cidades no País e ainda espera estrear no disputado aeroporto de Congonhas.

David Neeleman, fundador da Azul

David Neeleman, fundador da Azul

Se tudo sair do papel – o que depende de aprovações do governo de novas regras de ocupação em Congonhas e do lançamento de um plano de estímulo à aviação regional, que prevê o subsídio de voos com recursos públicos – a empresa pode ampliar em 31 aeronaves sua frota atual, de 138 unidades.

No setor, no entanto, há ressalvas quanto aos planos ambiciosos da Azul. Para boa parte do mercado, tanto o plano da aviação regional quanto as mudanças no aeroporto mais movimentado do País foram pensados sob medida para beneficiar a companhia. “Os slots (horário de pouso ou decolagem) em Congonhas não são da Gol ou da TAM. São do governo brasileiro. O governo tem o direito de dar os slots para quem quiser. Se eles querem dar para a gente, não vejo problema nisso”, reage o empresário.

Por que a Azul está investindo para crescer neste momento?

Porque nos achamos que os mercados de aviação regional e internacional devem ser maior do que são hoje. Mesmo quando a economia brasileira não está crescendo tanto, como agora, muito mais pessoas viajariam para fora do Brasil se as existisse uma tarifa menor e mais conveniência para viajar. Podemos oferecer isso.

Como?

Com um preço mais baixo e mais conveniência, principalmente para quem mora no interior. Com o plano de aviação regional, podemos comprar 20 novas aviões da Embraer (com cerca de 120 lugares) para colocar hoje em cidades que já voamos com ATRs (avião turboélice com 70 lugares). O jato tem uma economia de escala bem melhor que o turboélice e poderemos reduzir nossos preços em 25% nessas rotas e levar os ATRs para cidades novas. Hoje, uma pessoa que mora em Passo Fundo (RS), tem de pegar um carro e dirigir por três horas até Porto Alegre para depois pegar um avião. É muito mais caro e por isso as pessoas não viajam tanto no Brasil. A presença da Azul no interior vai dar acesso ao voo internacional para mais pessoas e alimentar os nossos voos para os Estados Unidos. O passageiro poderá sair de Passo Fundo e ir até Orlando com um check-in só. É uma conveniência incrível.

O sr. tem uma estimativa de quanto a Azul receberá de subsídio do governo?

Não sei dizer quanto. Mas a maior parte do dinheiro que vamos receber com subsídios não virá dos voos que já temos, mas dos novos voos que vamos colocar.

No ano passado, a Azul criticou a concessão de subsídios para as empresas. O sr. mudou de ideia?

Eu não sou um grande torcedor dos subsídios, mas acho que faz todo sentido oferecê-los a partir do momento em que foi criada uma fonte de recursos para isso. Esse dinheiro vem da privatização dos aeroportos. Isso vai gerar 25 anos de recursos da ordem de R$ 3 bilhões e faz sentido usar parte disso para fazer infraestrutura aeroportuária e parte para dar uma ajuda de custo de combustível às empresas. Vou dizer isso em vez de subsídio.

Mas não é possível fazer esses voos sem subsídio?

Essas cidades para onde eles (o governo) querem que a gente voe têm o combustível de aviação mais alto do Brasil. O combustível em São Paulo é 50% mais caro que nos EUA e em algumas dessas cidades o custo é duas ou três vezes maior que em São Paulo. Então é impossível voar para lá e ganhar dinheiro com os custos que nós temos. O plano de aviação regional vai viabilizar voos para novas cidades e vamos comprar novos jatos para voar onde hoje usamos ATRs. A Embraer vai ser muito mais feliz.

Como a Azul participou da elaboração deste plano?

Há quase três anos estamos trabalhando nisso. Não só a Azul. Mas a Gol, a TAM, muita gente falou com o Tesouro, com a SAC (Secretaria de Aviação Civil) e deu sugestões.

Uma das críticas ao plano é de que ele foi feito sob medida para beneficiar a Azul e a Embraer. O sr. concorda?
Não. O plano foi desenhado para estimular as empresas a fazerem mais voos regionais. Isso vai provocar uma redução nos preços das passagens. Claro, o plano vai acabar ajudando a Embraer, porque vamos fazer mais voos com jatos para o interior. Mas não vejo problema nisso. A Embraer é uma empresa brasileira. A Azul vai comprar mais jatos da Embraer para fazer essas rotas e a Gol e a TAM podem comprar também. Hoje nós voamos para 105 destinos e a Gol para 52 cidades e a TAM para 41 porque nós voamos com jatos da Embraer e eles não.

A mesma crítica é feita no caso de Congonhas. Dizem que o governo mudou a regra do aeroporto para beneficiar a Azul…
Os slots (horário de pouso ou decolagem) em Congonhas não são da Gol ou da TAM. São do governo brasileiro. O governo tem o direito de dar os slots para quem eles quiserem. Se eles querem dar para a gente, não vejo problema nisso. Hoje nós temos muito mais mercado do que a Avianca e eles têm 12 voos diários em Congonhas. E querem mais. A nossa entrada em Congonhas vai aumentar a concorrência é isso é bom para o mercado.

Com qual avião a Azul voará de Congonhas?

Com avião da Embraer. Até o fim do ano, vamos receber quatro aeronaves Embraer novas e é o que vamos precisar para voar em Congonhas.

Vocês podem usar aviões maiores em voos domésticos?

Vamos usar os Airbus A330 para voar até Manaus, onde temos uma necessidade maior de carga, e para Recife, onde a demanda é forte. Temos tempo na aeronave para fazer esses voos e os internacionais. Mas estamos sempre avaliando a possibilidade comprar aviões maiores, porque é mais econômico e existem rotas domésticas com longas distâncias que poderíamos usar. Mas não é algo para agora. De qualquer forma, vamos continuar comprando jatos da Embraer. Já fizemos encomendas para o modelo de segunda geração deles, que só chega a partir de 2018, já pensando em renovar a frota com aviões da Embraer.

Para onde a Azul voará de Congonhas?

Todo mundo quer fazer a ponta aérea (de Congonhas para o Santos Dumont, no Rio). Mas nós decidimos não fazer. Como não há espaço para ampliação no Santos Dumont, a Azul teria que tirar os voos que já oferece no Rio para fazer a ponte aérea. Não queremos fazer isso, porque a nossa operação no Santos Dumont está indo muito bem. Então vamos voar de Congonhas para os lugares onde temos mais força, como o aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. E de lá, o cliente pode ir para vários outros lugares, podemos sair de Congonhas e ir para o Brasil inteiro.

Pelos meus cálculos, os planos de crescimento em todas as frentes exigem 31 novos aviões na frota. A Azul tem recursos para suportar todo esse crescimento?

Sim, temos.

De onde?

Estamos ganhando dinheiro. A Azul é lucrativa. Tivemos lucro líquido no ano passado e demos R$ 11 milhões de bônus para os nossos tripulantes.

A empresa precisa fazer o IPO (oferta inicial de ações) para arcar com essa expansão?

Não precisamos do IPO para fazer o que estamos fazendo. Claro que nossos investidores gostariam que um dia a Azul abra o capital. Mas estamos só olhando no mercado. A decisão sobre quando fazer o IPO depende mais do mercado de capitais do que da Azul.

Por que a Azul escolheu voar para Fort Laudardale?

É muito perto de Miami. Existem 250 mil brasileiros que têm casa naquela região. E tem muita gente que vai pra lá fazer compras.

A Jet Blue tem um hub (centro de distribuição de voos) lá. Isso influenciou de alguma forma?
Sim. Não temos acordo com eles ainda, mas um poderemos fazer conexão entre os voos da Azul e da Jet Blue.

O sr. já está negociando um acordo?

Sim. Já estamos falando com eles. Mas ainda vai levar alguns meses para fechar.

É verdade que o sr. tem a intenção de recomprar a Jet Blue?

Eu acho que tem muita emoção (neste caso). Eu já falei muitas vezes que a Jet Blue poderia estar indo muito melhor.. Hoje as ações deles estão quase no nível quando saí da empresa, sete anos atrás. Quero fechar um acordo para fazer conexão com eles. Mas acho que será a única coisa, não mais.

A Azul também já foi apontada como uma eventual compradora da TAP. Essas negociações existiram?

Sempre temos conversas sobre essas coisas. Nós gostamos da TAP, temos um acordo de conexão com eles e temos muita amizade com o Fernando Pinto (presidente da TAP). Estamos aqui dispostos a ajudar, mas para comprar toda a empresa é muito complicado, com todas as coisas que estamos fazendo aqui. Seria difícil.

Mas de que forma a Azul poderia ajudar a TAP? Você se refere a comprar uma participação?

Não. Podemos fazer um acordo mais forte de conexão, trocar mais passageiros, fazer parcerias nos nossos programas de fidelidade. Podemos alinhar nossa malha para ajudar eles.

O sr. já vendeu outras empresas aéreas. Pretende fazer o mesmo com a Azul?

Acho que essa é minha última empresa. O potencial da Azul é muito maior do que o das outras empresas que eu já comecei. A Jet Blue só tem 5% do mercado dos Estados Unidos depois de 15 anos. E a Azul já tem quase 30% das decolagens no Brasil, que é o quarto maior mercado de aviação no mundo. A oportunidade aqui é muito maior do que em todas as outras empresas. Não quero vender.

Suas concorrentes, Gol e TAM, fizeram o IPO do programa de fidelidade deles e ganharam muito dinheiro. A Azul  acabou de criar uma diretoria para o Tudo Azul. A empresa deve seguir o mesmo caminho da TAM e a Gol?

Vamos ver. Não quero dizer nem sim nem não neste momento. O que queremos é que ele agregue mais valor para a Azul. Os bancos compram as milhas do Smiles e da Multiplus para dar para os clientes dos cartões e nós não estamos neste jogo. Nós queremos entrar e ganhar pelo menos os nossos 25% (de participação nas vendas de passagens estimada pela Azul). Se vamos abrir capital e separar o negócio, é algo que vamos decidir depois. Por enquanto, nós só queremos o nosso share no mercado de milhas.

Depois que a Azul anunciou o voo para os EUA a partir de Viracopos, a Gol e a American Airlines anunciaram a mesma rota. Como o sr. vê esse movimento?

No caso da Gol, não vemos isso como concorrência. Achamos que eles voam para Miami somente por conta do Smiles, para ter um prêmio para oferecer para o programa de fidelidade deles. Não é concorrência um voo que sai do Brasil de Boeing 737 (avião usado pela Gol) e para em Santo Domingo e depois segue para Miami. Atrás é muito apertado. É uma viagem muito difícil. Já o reforço da operação da American Airlines em Viracopos será bom para a Azul. Eles quase não tem conectividade para distribuir os passageiros pelo Brasil nos voos que chegam em Viracopos, porque a TAM, que é parceira deles, voa pouco de lá. Nós podemos levar esses passageiros para as 55 cidades brasileiras que temos voos diretos saindo de Viracopos.

Veja a resposta da Gol

Muitas empresas ampliara a oferta de voos do Brasil para os EUA nos últimos anos, saindo de diversas cidades. Vocês esperam guerra de tarifas nestas rotas?

Claro. Nós vamos entrar no mercado com preço de R$ 1500 ida e volta e você vai ver eles abaixarem o preço para o nosso nível. Se as empresas que saem de Guarulhos não fizerem isso, as pessoas de São Paulo vão pegar o voo em Viracopos. Nós temos o ônibus de graça de São Paulo para Campinas, que levam 3000 pessoas por dia.

A Azul anunciou o executivo Antonoaldo Neves como presidente em janeiro. Quais funções são exercidas por ele e quais são suas?

Ele toma conta de tudo. Eu venho para cá duas vezes por mês e fico três dias. Só estou aqui para dar apoio, ver se está indo tudo bem e dar algumas ideias.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: