A tecnologia precisa ser necessária
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A tecnologia precisa ser necessária

No festival Lions Innovation, antropóloga digital diz que internet das coisas ainda não ganhou escala porque ‘precisa de uma geladeira falante’

Economia & Negócios

22 Junho 2016 | 05h00

amber-chase-sorayaursine

Fernando Scheller /ENVIADO ESPECIAL

Uma geladeira que fala é uma das propostas da internet das coisas, que vem sendo vendida como a “próxima fronteira” do mundo da tecnologia. Na visão da antropóloga digital Amber Case – eleita como uma das mulheres mais influentes do setor pela revista ‘Fast Company’ -, a proposta de conectar os aparelhos mais mundanos da vida diária pode não decolar. E por um só motivo: o ser humano sabe quando uma banana está estragada e não precisa que a tecnologia faça isso por ele.

Ao participar do Lions Innovation, evento do Cannes Lions – Festival Internacional de Criatividade dedicado à tecnologia, Amber lembrou que muitos dos novos aparelhos que estão sendo desenvolvidos não levam em conta que o usuário está farto de ser interrompido. O Estadão é o representante oficial de Cannes Lions no País.

Ou seja: se a pessoa já recebe alertas de e-mail, WhatsApp e Facebook no telefone celular, para que ela vai querer um relógio supostamente inteligente para repetir todas essas mesmas informações? “É preciso reduzir a quantidade de informação”, propõe. “A quantidade ideal de tecnologia na vida de uma pessoa é a mínima necessária.”

Uma das propostas de Amber para mudar o quadro e salvar a internet das coisas de seu fracasso é a aplicação do “design calmo” aos produtos que forem lançados nos próximos anos. Entre as inspirações para as novas invenções, ela propõe o exemplo do Roomba, o aspirador de pó esférico, que emite apenas um sinal quando termina de limpar um cômodo.

Eficiência. Para se comunicar com o ser humano, um produto não precisa falar: ela cita a chaleira que apita quando a água ferve como um exemplo de “design calmo”, pois cumpre sua função sem exigir quase nenhuma atenção do usuário. Para provar que a chaleira é um objeto eficiente, ela pôs uma venda em um participante na palestra e pediu para que, sem enxergar, ele dissesse quando seu chá estivesse pronto. Ele ouviu o apito e levantou a mão.

A tecnologia desnecessária também é uma fonte de frustração. Por isso, segundo Amber, a tendência é que as pessoas consigam separar mais rapidamente as inovações reais das descartáveis – que só vão ser fonte de perda de tempo e dinheiro. “Não existe meio termo na tecnologia: ou se usa algo ou não se usa. E a gente se sente culpado por ter gasto US$ 300 em algo inútil.”

Marketing. Presidente da agência Hacker, especializada em tecnologia, Haydn Sweterlitsch, diz que o “design calmo” permite que funções sejam adicionadas a um determinado produto sem que o usuário seja desviado de sua atividade principal. “Os painéis de carro são um bom exemplo. Eles permitem que o motorista use outras funções com o mínimo de distração.”

Segundo Sweterlitsch e Amber, o Echo, dispositivo residencial da Amazon, é um exemplo de um produto inovador que toma o cuidado de não “assaltar os sentidos” do usuário. Semelhante a uma caixa de som, o aparelho tem inteligência artificial embarcada e se comunica com o dono da residência por voz, ajudando-o a escolher uma playlist de músicas e a fazer listas de tarefas, por exemplo.

O desafio da boa tecnologia, segundo Sweterlitsch, reside em fazer mais com menos. “Quem hoje tem cerca de 40 anos, lembra-se bem da secretária eletrônica. Quando se chegava em casa, apenas uma pequena luz piscando já dizia muita coisa. Se havia recados, era sinal de que não estávamos sozinhos no mundo.”

Mais conteúdo sobre:

Cannes