‘Continuamos fazendo um grande jornal’
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‘Continuamos fazendo um grande jornal’

Mesmo após tiroteio, repórteres do Capital Gazette seguiram trabalhando, cobrindo sua própria tragédia

Economia & Negócios

02 Julho 2018 | 05h00

Matthew Haag
Sabrina Tavernise
THE NEW YORK TIMES

Nem mesmo uma tragédia impediu os jornalistas do Capital Gazette, de Maryland (EUA), de seguir trabalhando e relatando sua própria tragédia. Na última quinta-feira, um atirador invadiu a redação do jornal com uma escopeta e disparou, matando quatro jornalistas e uma funcionária da área de vendas.

A primeira notícia sobre a matança veio em um tuíte do estagiário Anthony Messenger: “Atirador em ação em Bestgate 888. Por favor, ajudem-nos”. Em meio ao tiroteio, o repórter policial Phil Davies agachou-se sob uma mesa para mais tarde contar o que viu e ouviu. O fotógrafo Joshua McKerrow, por sua vez, registrou do lado de fora a ação da polícia.

McKerrow olhava tenso para o laptop, esperando para transmitir suas fotos. Não era bem o dia que ele planejara. Após cumprir uma pauta pela manhã, ele estava indo buscar a filha para a festa de aniversário dela quando ouviu sobre o tiroteio. Ao falar sobre seu jornal, McKerrow se entusiasma. “É um jornal de verdade e, como qualquer outro, é também uma família.”

“Só vou dizer uma coisa: estamos fazendo um grande jornal”, tuitou à noite o repórter Chase Cook. Na garagem do shopping center Westfile Annapolis, que fica em frente ao jornal, repórteres se aglomeravam em torno de um laptop instalado na carroceria de uma caminhonete prata. Produziam matérias ao mesmo tempo que mandavam mensagens a parentes e amigos preocupados.

Cook cobre política estadual e havia trabalhado 16 horas no dia anterior, acompanhando eleições. Por causa dessa longa jornada, estava de folga em casa na hora do ataque. Mas, quando ouviu sobre o incidente, foi imediatamente para o jornal, passando a trabalhar na garagem do shopping.

Na sexta-feira, o Capital saiu com uma edição de 40 páginas. A manchete – “5 mortos no ‘Capital’” – vinha logo abaixo das fotos dos cinco mortos: Gerald Fischman, de 61 anos, responsável pela página editorial; Rob Hiassen, 59, editor e colunista; John McNamara, 56, repórter esportivo e editor; Rebecca Smith, 34, assistente de vendas; e Wendi Winters, de 65 anos, repórter de cidades e colunista.
A reportagem de capa sobre a matança era assinada por 10 dos 20 jornalistas que compõem a redação. As páginas interiores traziam notícias detalhadas sobre quem era o suspeito atirador, sobre a história do jornal, fundado nos anos 1720, e perfis dos profissionais assassinados.

Por 26 anos, a página de opinião das sextas-feiras trouxe um texto de Fischman, conhecido por opiniões “contundentes, mas justas”. Mas Fischman estava entre os mortos. A página saiu em branco, exceto por um pequeno bloco de texto no meio, em que se lia: “Hoje, estamos sem ter o que dizer. Amanhã, esta página voltará a sua missão de levar aos leitores opiniões formadas sobre o mundo em volta deles.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ