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Menos desperdício?

Tenho certeza que muitos já viram aquele caminhão com grãos escorrendo carga nas estradas ou aquela coleta de frutas e legumes – por parte de determinado segmento da população – nos fins de feira.

Jose Vicente Caixeta Filho

07 Outubro 2015 | 09h16

O conceito de perdas sempre foi muito abrangente para a agricultura, em particular para a agricultura brasileira.

É clássica aquela comparação – por exemplo – de que tudo que se ganha “dentro da porteira” (maiores produtividades, por exemplo) se perde “depois da porteira”. Talvez a novidade seja que, em comparativos internacionais, quando se convertem os gastos em Reais para US$, realizados com atividades de transporte e de armazenagem, nossos valores (em US$) diminuíram significativamente (quem sabe um dos poucos benefícios dessa tão criticada taxa de câmbio atual?).

De qualquer forma, mesmo em detrimento da pequena oferta de ferrovias e de hidrovias, da não suficiente existência e utilização de estruturas de armazenamento dentro das propriedades – dente outros fatores – perdemos muito!

Nesse sentido, vale destacar o evento ocorrido durante o período compreendido entre 4 e 7 de outubro de 2015, em Roma (Itália), denominado “1º. Congresso Internacional de Prevenção de Perdas Pós-Colheita”. O foco era – portanto – voltado a perdas físicas e não diretamente às perdas econômicas (por mais que – naturalmente – perdas físicas impliquem perdas econômicas).

Algumas curiosidades:

– parece ter voltado à moda esse tipo de temática (na década de 1970, houve reuniões da FAO e da ONU estipulando metas para a diminuição do nível de perdas pós-colheita para os mais diversos produtos agrícolas: tais metas não foram devidamente monitoradas e, pelas apresentações compartilhadas em Roma, pouca coisa mudou);

– ainda existem alguns números mágicos, tipo 30% de perdas físicas ocorrem durante atividades pós-colheita, sendo o transporte responsável por quase um terço das mesmas;

– há uma relação muito direta entre perdas físicas pós-colheita e o grau de desenvolvimento das regiões: em países pobres localizados na África e mesmo na América Latina (o Brasil sempre é destacado), o nível de incidência de perdas é normalmente mais elevado, ou seja, perdas físicas de alimentos parecem estar intimamente ligadas à pobreza dessas populações;

– o evento teve como organizador principal o ADM Institute for the Prevention of Postharvest Loss, que fica lotado em Urbana-Champaign, no Estado americano de Illinois e que conta com aporte de recursos da trading ADM (Archer-Daniels-Midland Company), que também atua no Brasil;

– os principais patrocinadores/apoiadores do evento foram a Fundação Rockefeller, a Fundação Bill & Melinda Gates e a montadora John Deere;

– houve a apresentação de muitos trabalhos sobre perdas pós-colheita na agricultura brasileira, inclusive por parte de pesquisadores estrangeiros;

– os pesquisadores brasileiros, que por sinal apresentaram excelentes trabalhos, se conheceram no evento;

– novas metas de redução de perdas foram definidas ao final do evento, que contou com representantes de 62 países;

– o Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da ESALQ/USP (ESALQ-LOG) está iniciando neste mês de outubro um trabalho importante de mensuração dessas perdas na chamada “supply chain” do açúcar (SP e MG) e de grãos (Brasil como um todo).

Tenho certeza que muitos já viram aquele caminhão com grãos escorrendo carga nas estradas ou aquela coleta de frutas e legumes – por parte de determinado segmento da população – nos fins de feira.

Entendo que esses são retratos típicos de nossas condições ainda vigentes, que precisam ser alterados a partir de trabalhos multidisciplinares e que venham a fazer parte da famosa “agenda de Estado” que tanto sonhamos