Preços agrícolas em queda
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Preços agrícolas em queda

Há uma clara expectativa, no mercado internacional, de diminuição dos valores de preço real de uma série de commodities agrícolas. Como o Brasil é um grande produtor de grande parte dessas “matérias primas” mas também um tomador de preços, urge que os custos envolvidos sejam ainda mais bem monitorados e, se possível, diminuídos

Jose Vicente Caixeta Filho

30 de outubro de 2014 | 11h42

Colheita de soja no Mato Grosso (Foto: divulgação)

Colheita de soja no Mato Grosso (Foto: divulgação)

O que tem chamado mais recentemente a atenção para os agronegócios brasileiros é certamente a delimitação das novas fronteiras agrícolas demarcadas tanto na região Centro-Oeste quanto nas regiões Norte e Nordeste. Sabemos produzir e produzimos muito e bem. E ainda temos um estoque bastante significativo de áreas agricultáveis.

O Brasil tem esta característica bastante peculiar: a competência em alcançar índices de produtividade altíssimos para as mais diversas culturas agrícolas. Assim sendo, não é considerada como esporádica a liderança brasileira em vários segmentos de agronegócios, seja em termos de produção, seja em termos de exportação.

O retrato da produção, o que se costuma chamar “de dentro da porteira”, possui detalhes dos mais diversos e interessantes. Estamos, sim, neste novo momento para os agronegócios, mostrando competência e qualidade na forma de se produzir, conseqüência também de maior área disponível, maior área plantada, mas, certamente, conseqüência de um alto grau de tecnificação e de altos níveis de gestão na produção.

Realmente, os agronegócios proporcionam um orgulho muito claro e nato a qualquer cidadão brasileiro. O Brasil tem recebido várias missões estrangeiras, em diversos pólos de agronegócios, para observar, com os próprios olhos, como uma agricultura verdadeiramente profissional pode ser viabilizada de fato. Este é o momento indicado para que aqueles com competência para gerenciar, para administrar o agronegócio, exibam a qualidade dos seus serviços.

Entretanto, toda essa produção está inserida em um universo geográfico de dimensões continentais. Para que distâncias sejam vencidas para se movimentar toda a produção brasileira, seja para o mercado interno, seja para o mercado externo, enfrenta-se alguns entraves. Há uma série de exemplos de rotas que envolvem longas distâncias e que se revelam como a única alternativa para movimentar aquela produção.

Essas distâncias, quase que invariavelmente, têm que ser vencidas por rodovias, em condições das mais variadas, implicando um custo bastante elevado para esse negócio. E, conforme mencionado, os agronegócios brasileiros continuarão a envolver cargas de baixo valor agregado. Assim, o impacto relativo do valor de frete no mercado de cargas de baixo valor agregado acaba sendo muito expressivo.

Além disso, junto com essas longas distâncias, a qualidade das vias – particularmente nas novas regiões de fronteira agrícola – é baixa e medidas para sua melhoria ainda não são efetivamente tão eficientes. Porque se não for possível tapar o buraco, coloca-se uma placa avisando que há buracos na pista. Mais: em várias regiões brasileiras, a época da colheita está diretamente relacionada com a época das chuvas e isto acaba por comprometer significativamente a logística envolvida.

Parece também que a alternativa de concessão rodoviária à iniciativa privada – via modelo de pedagiamento – passa a ser a principal explicação para estradas em boas condições. Na ponta final da cadeia da nossa chamada movimentação terrestre nos deparamos com as filas nos portos: é um problema portuário (entraves ainda na recepção de granéis sólidos agrícolas, principalmente), é um problema de transporte (muitos caminhões em espera, cobrindo extensões que chegam a superar centenas de quilômetros) mas, certamente, também é um problema de armazenagem (o famoso “estoque sobre rodas”).

Ainda padecemos da prática em que, imediatamente após a colheita, necessitamos escoar a safra porque não dispomos de condições ou de acesso a estruturas de armazenagem adequadas, principalmente dentro das propriedades. Entre final de janeiro e início de maio, todos querem escoar sua soja, se sujeitando a um valor de frete mais elevado (em função da maior demanda pelo transporte), num momento em que não necessariamente o preço a ser pago pela commodity é o mais adequado.

Este é um período do ano importante para o agronegócio uma vez que o produtor rural é um cliente muito respeitável, com potencial para exigir mudanças e para ser um parceiro importante na transformação da matriz de transportes de cargas brasileira.

Neste novo momento em que o agronegócio é, de fato, um segmento respeitado, reconhecido e principal interlocutor para a mudança da matriz de transportes brasileira, observamos alguns novos paradigmas, principalmente relacionados às escalas envolvidas. Aqueles que estão sendo mais bem sucedidos num prazo menor, são os com maior escala.

Creio que falta mais “coragem” por parte dos agentes público e privado para a realização de investimentos em infraestrutura. E por que a coragem não transparece? Porque as regras não são tão claras. A clareza das regras do jogo – os chamados marcos regulatórios – é muito importante.

E advogo uma agenda permanente de obras de infraestrutura, para qualquer governante, de qualquer partido que, depois de eleito, realize as obras já avaliadas e que precisam ser realizadas. Senão, o tempo de gestão termina e nada acontece, ou atitudes precipitadas acabam gerando má alocação de recursos.

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