A educação a distância, inclusive corporativa, em tempos de pandemia
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A educação a distância, inclusive corporativa, em tempos de pandemia

Se por um lado o novo coronavírus revelou deficiências e o que de pior temos no País, por outro lado ele pode acelerar transformações no ensino antes inimagináveis

Marisa Eboli

19 de maio de 2020 | 13h46

Em meio a esta terrível pandemia do novo coronavírus, temos a oportunidade de presenciar uma experiência educacional surpreendente, diria mesmo histórica. Ela forçou educadores do mundo inteiro a encontrar maneiras alternativas de ensinar, privados do encontro presencial. Para muitos, a interação pessoal era o principal aspecto do ofício de um professor para despertar na criança ou no jovem o desejo de aprender. Desafio também colocado para todos os níveis de ensino (formais e não formais), graduação, MBAs, pós-graduação e ensino corporativo.

Reportagem deste jornal apontou que a educação a distância (EAD) explodiu nessa crise e deve se manter em alta no longo prazo. No Brasil, quase dois meses depois de as escolas fecharem e pipocarem as versões a distância, 83% dos professores, sejam da rede pública ou particular, não se consideram preparados para ensinar online. De acordo com pesquisa do Instituto Península, eles se declararam ansiosos e insatisfeitos; quase 90% informaram nunca ter tido experiência com ensino a distância. No entanto, educação a distância não é um assunto novo…

Os inícios da educação a distância remontam ao século 18. O marco inicial é de 1728, quando foi anunciado um curso pela Gazeta de Boston, que oferecia material para ensino e tutoria por correspondência. Em 1829, na Suécia, é inaugurado o Instituto Líber Hermondes, que possibilitou a mais de 150 mil pessoas realizarem cursos por meio de EAD. Seguiram-se inúmeras iniciativas pelo mundo.

No Brasil, os primeiros dados são do século 20. Em 1904, o Jornal do Brasil registra anúncio que oferecia profissionalização por correspondência para datilógrafo. Em 1923 foi criada a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que oferecia cursos de português, francês, silvicultura, radiotelegrafia e telefonia. Tinha início assim a EAD pelo rádio. No ano de 1939 surgiu, em São Paulo, o Instituto Monitor, sendo o primeiro a oferecer sistematicamente cursos profissionalizantes por correspondência.

Estudos apontam que o ensino a distância deve se intensificar na educação corporativa após a pandemia do novo coronavírus, ainda que mesclado ao formato físico. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Em 1941, o Instituto Universal Brasileiro também passa a oferecer cursos profissionalizantes. Até por volta dos anos 1960, praticamente todos que consertavam rádio haviam aprendido em um desses cursos. Houve o programa Minerva. Depois, o Ceará criou seu curso médio pela televisão. De todas, a iniciativa de maior capilaridade foi o Telecurso, da Rede Globo.

A Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed) foi fundada em 1995 por um grupo de educadores e até hoje congrega grande quantidade e qualidade de pesquisadores. Abriu caminho para que a EAD no Brasil nascesse oficialmente em 1996, quando da criação da Secretaria de Educação a Distância, pelo Ministério da Educação, com a intenção de democratizar a educação brasileira. No entanto, o CNE não concedeu espaço para programas dessa natureza. Pior, a secretaria foi extinta em 2011.

Obviamente o desenvolvimento da computação e das tecnologias da informação e comunicação trouxeram novas mídias, como a World Wide Web (www), YouTube, redes sociais, permitindo novas interações interpessoais e experiências.

Realidade Aumentada (AR) e Realidade Virtual (VR), duas das obras-primas da tecnologia contemporânea, têm suas origens de longa data. Artigos acadêmicos mostram que a tecnologia VR – que hoje é um grande negócio nas áreas médica, aeroespacial e militar – não é nova, pois o termo nasce há mais de um século.

A primeira menção remonta a 1860. Simuladores foram introduzidos na década de 1920. Todos os pilotos, da Força Aérea, comercial ou privada, vêm sendo treinados em simuladores de voos, por quase um século. O uso da VR tem o potencial de reduzir significativamente os riscos e os custos de preparação de pilotos e médicos, profissões de alta complexidade.

EAD e educação corporativa

Desde 1999, quando da publicação da coletânea Universidades Corporativas, por mim coordenada, tenho procurado acompanhar as experiências sobre educação corporativa (EC) no Brasil. À época, dentre os princípios de sucesso da EC, como nos antigos cursos por correspondência, destacava-se “Aprender a qualquer hora e em qualquer lugar”. Muitas empresas já adotavam a EAD e enfatizavam suas inúmeras vantagens: autonomia, menor custo, redução de deslocamentos, abrangência, facilidade de acesso, flexibilidade etc. O que me levou a escrever no ano 2000 o artigo “Clico, logo existo”, publicado pela Revista T&D.

A partir de 2009 passei a realizar, trienalmente, a Pesquisa Nacional de Educação Corporativa pela FIA, que objetiva dar um panorama nacional sobre EC, identificar inovações, além das políticas e práticas vigentes. E é fato que a EC no Brasil vem se consolidando como referência mundial por sua qualidade e práticas inovadoras.

As tendências relevantes mencionadas na última edição da pesquisa (2018) foram: transformação digital (adoção de tecnologias digitais como realidade aumentada, realidade virtual, inteligência artificial etc.), aprendizagem colaborativa, metodologias ativas, aprendizagem adaptativa, aprendizagem por meio de dispositivos móveis (tablets e celulares), aprendizagem por experiência (on the job, projeto, estágio, job rotation etc) e aprendizagem por relacionamento (coaching, feedback, comunidades de aprendizagem, mentoria).

Com relação à EAD, 83% dos 92 respondentes afirmaram possuir práticas desse tipo de ensino. Os principais motivos para sua adoção são: ampliar base geográfica atendida, aumentar a escala de aplicação dos programas educacionais, flexibilizar acesso dos participantes e reduzir custos de viagens.

Entretanto, mesmo entre as organizações que possuem EAD, a modalidade presencial ainda é preponderante: 52% dos programas são totalmente presencias e apenas 31% exclusivamente a distância; 17% são semipresenciais (blended). Na edição de 2009 os porcentuais eram respectivamente 70%, 17% e 13%. Tudo indica que têm imenso potencial os formatos blended learning. Quase todos os que adotaram a EAD possuem um ambiente virtual de aprendizagem. Depois da pandemia, EAD deve se intensificar muito na EC.

Nesse sentido, parece adequada a meme em forma de questão com múltipla escolha que se propagou nas redes sociais: Quem acelerou o processo de transformação digital da sua empresa?

( ) CEO
( ) CIO
( ) Diretor de Inovação
( X) Novo coronavírus

Não desconheço as principais críticas ao ensino a distância: falta de calor humano, resistência (dos professores e dos alunos), distância da realidade, falta de familiaridade com tecnologia, problemas técnicos relativos à internet etc. E em cursos longos é difícil manter a atenção, a dedicação e a permanência dos alunos.

Tenho a convicção de que o professor continua sendo fundamental, mesmo na EAD. Por isso, sou favorável ao blended learning, que combina a aprendizagem presencial e a baseada em tecnologia (síncrona e assíncrona), potencializando o nível de aprendizado do aluno.

O que me pergunto é por que, com o histórico de EAD no Brasil, no ensino formal não evoluímos e adotamos as mesmas práticas do ensino corporativo? Por longo tempo, o ensino acadêmico manteve-se longe e desdenhou a EAD. Subitamente, tem que adotá-lo, sem tempo de preparação. Note-se, nas universidades corporativas, o sucesso deve-se a um processo de longa maturação e aperfeiçoamento permanente.

Porém, essa é uma das mudanças que só se consumam diante de crises. As escolas e secretarias de educação precisam aprender e praticar o que já é sabido por outras instituições. E parece que, com relação à EAD, o Brasil conhece e aplica muito, só que não no sistema formal. O conservadorismo das salas de aula dos ciclos acadêmicos precisa ser superado.

Agora, com muita dor, as lições começam a ser aprendidas. A ironia da história é que a mudança que precipitou o embarque de quase todos na educação a distância é a mesma que não permite um tempo razoável para que todos se preparassem e planejassem as etapas e os recursos mais adequados para sua eficácia. E, o que é pior, há pouquíssima experiência de oferecer ensino básico a distância.

Infelizmente, o ciclo básico matricula uma grande proporção de alunos de origem muito modesta. São eles que carregam mais dificuldades em acompanhar esse ensino, pois, além de estrutura tecnológica, carecem de disciplina de estudos, de motivação e de uma família que os apoie.

Muito provável que a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus gere uma mudança significativa e positiva que permita dar passos largos no aprimoramento do nosso sistema educacional, ampliando possibilidades de acesso à educação com qualidade, que é a chave para combater desigualdades, principalmente num país de dimensões continentais como o Brasil. Essa pandemia revelou o que de pior temos no País, mas também pode acelerar transformações antes inimagináveis.

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* Marisa Eboli é doutora em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora da graduação e do mestrado profissional da Fundação Instituto de Administração (FIA). (meboli@usp.br)

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