A troca do duvidoso pelo desafio certo já

Claudio Marques

15 de abril de 2012 | 12h15

A possibilidade ter uma ascensão profissional mais rápida e autonomia para comandar a empresa, além de ter ganhos maiores, vem atraindo executivos de multinacionais para companhias nacionais de pequeno e médio porte. Preferem assim chegar já ao topo da carreira numa empresa menor do que esperar por essa chance onde estão. O movimento vem ocorrendo nos últimos quatro anos, mas começou a se intensificar em 2011 impulsionado pelo crescimento da economia brasileira, segundo especialistas. De acordo com a consultoria Hays, 25% dos executivos selecionados para cargos de CEO ou de diretor são para médias e pequenas empresas. A maioria vem de multinacionais.
Atraído pela oportunidade de se tornar um CEO aos 33 anos de idade, Gustavo Furtado trocou a gerência de marketing da Microsoft para assumir o comando da Tricae, empresa especializada em e-commerce de artigos infantis, criada no final do ano passado. “Claro que sempre devemos ter em mente que assumimos riscos em qualquer troca de emprego, mas para chegar a esta posição na Microsoft, se eu conseguisse, demoraria muitos anos.”
Antes de mudar de emprego, Furtado também considerou a remuneração – ele passou a receber um porcentual baseado no desempenho da empresa – e a possibilidade de colocar em prática tudo o que aprendeu no MBA em gestão de negócios na Kellogg Management School (EUA). “Na empresa anterior eu não participava de todo o processo produtivo. Aqui eu me envolvo nos projetos desde a concepção até o resultado final”, conta.
O desafio também motivou Fábio Modolo, de 35 anos, a sair de uma carreira promissora no Whirpool, grupo americano dono da marca Brastemp, onde ocupava o cargo de diretor de planejamento estratégico e de fusões e aquisições, para ser o CEO da recém-criada DropGifts, uma plataforma de distribuição de vales-presente de grandes marcas.
“Tinha perspectiva de crescimento na empresa, mas não conseguia enxergar os desafios que tenho aqui hoje, o que é muito engrandecedor. Agora, eu preciso pensar no modelo de negócio, convencer parceiros a apostar em um produto inovador e trazer resultados, já que contamos com investidores. Mas esta dinâmica é muito emocionante.”
Modolo acredita que tem perfil empreendedor, o que facilitou o seu desempenho na implementação do negócio. “Participei de todo o processo de implementação da plataforma. É outra dinâmica. O dinheiro é curto, a equipe é pequena, por isso incentivamos a integração. Quando chega um novo funcionário, inclusive, damos uma caixa com a cadeira para ele mesmo montá-la. É uma forma de mostrar que todos são responsáveis pelo sucesso da empresa”, afirma.
Outro que resolveu arriscar foi o atual superintendente do Shopping Eldorado, Fernando Rheingantz, de 32 anos. Ele optou por sair da Nokia, onde ocupava o cargo de diretor de varejo, para assumir o comando do empreendimento comercial.
“Duas coisas me atraíram para aceitar a proposta do Eldorado: primeiro é uma ótima perspectiva de carreira, porque é um mercado que me interessava muito, por ser um shopping grande, e a chance de ter uma vivência em um tipo de empresa diferente”, diz. E acrescenta: “Em segundo lugar, eu fiz minha carreira em grandes multinacionais e eu queria viver um pouco a experiência de estar junto com os donos, com os sócios, e de estar tocando um negócio de uma forma completa. Aqui, eu faço a gestão do negócio inteiro de uma forma mais local, com mais velocidade e autonomia. Claro que a remuneração também influenciou”.
Segundo a gerente de práticas de varejo e vendas da Hays, Oshry Vidal, o movimento ocorre principalmente no setor de varejo. “Neste segmento há muita empresa familiar e, com o aquecimento da economia, os dirigentes perceberam que há a necessidade de gestão mais eficiente”, diz. Outro fator que contribui para esse quadro, de acordo com Oshry, é a chegada de grandes marcas ao Brasil. “Somente no novo Shopping JK Iguatemi, são 25 novas marcas que estão desembarcando no País. Todas estão atrás de executivos locais para comandar as operações,”
Outro setor que promete atrair mais executivos globais é o financeiro. Segundo o presidente do conselho do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (Ibef), Keyler Carvalho Rocha, o mercado está carente de profissionais qualificados, levando as empresas em expansão a “roubar” executivos de múltis. “O profissional de finanças é polivalente e sabe administrar companhias de vários segmentos. E toda empresa precisa de um gerente ou diretor financeiro. Por isso, cresceu a procura por esses executivos.”

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