A vida eterna é aqui: uma reflexão sobre a possibilidade da imortalidade
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A vida eterna é aqui: uma reflexão sobre a possibilidade da imortalidade

Para além da longevidade, estudiosos apostam na possibilidade real e científica da imortalidade a partir de avanços tecnológicos, conta professora em artigo

Marisa Eboli

30 de dezembro de 2019 | 15h01

A questão da longevidade das populações brasileira e mundial tem sido tratada de forma crescente em congressos e artigos acadêmicos, bem como na gestão de pessoas nas organizações. É inquestionável que os avanços científicos têm garantido vidas mais longas aos indivíduos, requerendo que as empresas olhem para a questão geracional com muito cuidado, entendendo sua importância estratégica.

A longevidade tem se escancarado a nossa frente. Um dos mais recentes sucessos da Netflix, o filme O Irlandês é estrelado, entre outros ícones da indústria cinematográfica, por Al Pacino e Robert De Niro, de 79 e 76 anos de idade, respectivamente. Outro ídolo que venero é Clint Eastwood, que em maio de 2020 fará 90 anos. No início deste ano assisti à película “A Mula”, que ele dirige e em que interpreta o personagem principal. Entre os shows memoráveis que vi nos últimos anos sem dúvida estão: Paul McCartney, de 77 anos, Rolling Stones (Mick Jagger hoje está com 76), Eric Clapton, 74, e Elton John, 72.

Caetano Veloso, de 77 anos, há mais de dois anos vem rodando o mundo com o show Ofertório em conjunto com seus três filhos. Dias atrás fui ao BlueNote de São Paulo ver uma apresentação do cantor e compositor Marcos Valle, 76. Mês passado fui ao de Carlinhos Lira, 86, uma figura emblemática da Bossa Nova. Vi Fernanda Montenegro, 90, arrasando no filme A Vida Invisível. E o Rei Roberto Carlos, 78, continua cantando seus sucessos no Especial de Natal na televisão e levando a plateia ao delírio.

Provavelmente eles nunca leram o artigo de dois professores da London Business School, Andrew Scott e Lynda Gratton, autores de The 100-Year Life: Living and Working in an Age of Longevity. Mas certamente seguem seus conselhos, que derivam de um fato irrefutável: a expectativa de vida aumentou tanto que uma criança nascida no hemisfério ocidental tem mais de 50% de chance de viver até os 105 anos. Apenas um século atrás, esse número era de apenas 1%.

Para além da longevidade, especialistas apostam na possibilidade real da imortalidade. Foto: Pixabay

Os autores enfatizam que superaremos a expectativa de vida de nossos pais e nossos filhos vão superar a nossa. Questionam: “se vamos aproveitar mais tempo com uma saúde melhor, o que podemos fazer para ter uma vida realizada pelo resto dos anos que restam?” Eles sugerem que, independentemente de quantos anos tenhamos, devemos revisitar nossa agenda vital de tomada de decisões em três áreas principais:

  • Reinventar-nos em diferentes estágios de nossas vidas: significa que não podemos esperar viver da mesma maneira ao longo de toda a vida e que temos que nos dar permissão para mudar. Ao mesmo tempo, se precisarmos nos reinventar como pessoas nas diferentes fases, teremos que planejar com antecedência.
  • Planeje e experimente: a longevidade nos verá enfrentando maiores necessidades econômicas, o que exigirá um melhor planejamento financeiro, além de economizar e investir mais.
  • Paixão por aprender: o que nos fará sentir vivos é uma atitude positiva constante em relação ao aprendizado. Fundamental incentivarmos nosso desejo de aprender, fomentar a criatividade, apreciar a arte ou questionar a nós mesmos.

Se fizermos tudo isso, provavelmente seremos capazes de desfrutar de uma vida significativa, declaram. Até aqui tudo bem. Agora pense na possibilidade não de viver mais de 100 anos ativamente e com qualidade de vida; mas sim na imortalidade!

Foi essa a fala chocante de José Luiz Cordeiro numa palestra intitulada “A morte da morte” que vi no espaço Cubo Itaú, em 2018. Recentemente foi publicada a edição brasileira do seu livro A Morte da Morte: A Possibilidade Científica da Imortalidade, em parceria com o matemático David Wood, da Universidade de Cambridge, no qual colocam à prova suas ideias sobre a interrupção da velhice, considerada por eles uma doença.

A ideia é que tratemos o envelhecimento como uma doença a mais, a pior das doenças, a mãe de todas as doenças. Reforçam seu pensamento mencionando um livro chamado Lifespan: Why We Age — And Why We Don’t Have To, de um cientista da Universidade de Harvard, David Sinclair, biólogo muito respeitado que diz: “o envelhecimento é uma enfermidade e temos de classificá-lo assim para que tenhamos mais pesquisas”.

Cordeiro é engenheiro, economista, escritor e futurista hispano-venezuelano, e nasceu em 1962. Trabalha em pesquisas sobre desenvolvimento econômico, relações internacionais, América Latina, tendências energéticas, estudos constitucionais, entre outros. Formado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), concentra-se nos recursos médicos e computacionais que já ajudam a prolongar a vida e prometem transformar a morte em um mal evitável.

Se você está achando que é coisa de malucos e lunáticos, é bom conhecer alguns depoimentos que constam do livro, como o de João Pedro de Magalhães, especialista em longevidade da Universidade de Liverpool: “A morte da morte trata de uma das máximas prioridades morais dos dias de hoje: frear e deter o envelhecimento e a morte. À medida que fica mais clara a viabilidade científica destes avanços, aumenta cada vez mais a importância de explicar e compreender as implicações. A morte da morte cumpre esse importante papel.” Anders Sandberg, professor do Instituto do Futuro da Humanidade da Universidade de Oxford, diz: “A morte da morte reúne pesquisas fundamentais e perspectivas novas para um futuro no qual viveremos muito mais do que acreditamos ser possível hoje em dia.”

Cordeiro e Wood debatem o modo como avanços tecnológicos têm aumentado a longevidade do ser humano, aquecendo as apostas sobre a possibilidade real da imortalidade. A morte não é algo tão inevitável assim e asseguram que a imortalidade do homem será um fato daqui a 30 anos, “graças aos avanços exponenciais da inteligência artificial, regeneração de tecidos, tratamentos com células-tronco, impressão de órgãos, bem como terapias genéticas ou imunológicas que resolverão o problema do envelhecimento corporal humano”, escrevem.

Mais que fazer obscurantismo acadêmico, magia ou achismos diversos, Cordeiro e Wood se interessam pelas possibilidades reais e científicas da imortalidade. Empresas antigas estão investindo mais em terapias de rejuvenescimento e novas empresas estão sendo criadas continuamente. Há uma enorme disrupção envolvendo as tradicionais indústrias farmacêuticas e de saúde, particularmente com participantes externos de setores de TI envolvendo-se cada vez mais em assuntos médicos. Apple, Amazon, Facebook, Google, IBM e Microsoft estão investindo crescentemente em soluções de saúde.

Certamente o assunto evoca uma série de questões e pensamentos complexos dos pontos de vista ético, filosófico, socioeconômico e de sustentabilidade planetária. Por isso mesmo não dá para ficar indiferente às provocações dos autores. Que tal entrar na nova década com tais reflexões disruptivas? Um excelente exercício para rejuvenescer sua vida pessoal e profissional, e quem sabe alcançar a eternidade, aqui na Terra mesmo.

Carlos Drummond de Andrade afirmou em seu poema Definitivo: “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.” Será que em futuro breve diremos: a doença é inevitável. A morte é opcional? Que venha 2020!

* Marisa Eboli é doutora em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora de graduação e do mestrado profissional da Faculdade FIA de Administração de Negócios. (meboli@usp.br)

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