A volta ao mercado de trabalho depois dos 50 anos

A volta ao mercado de trabalho depois dos 50 anos

Claudio Marques

15 de outubro de 2013 | 11h53

Auditor do Wet’n Wild há duas semanas, Valter Francisco Giacomelli, de 52 anos, acredita que a experiência profissional foi importante para conseguir se recolocar no mercado de trabalho, quando, aos 51 anos, foi demitido depois de atuar por 22 anos em uma empresa. No entanto, confessa: “Fiquei preocupado com a possibilidade de não conseguir uma nova posição”.

Giacomelli é formado em ciências contábeis e possui pós-graduação em gestão empresarial. Ele conta que enviou mais de 300 currículos e foi chamado apenas para três entrevistas. “Eu sempre fui transparente e informei minha idade, não sei se foi por isso que poucas empresas me ligaram.”

Giacomelli. Novo emprego aos 51 anos (Imagem: Werther Santana/Estadão)

Para ele, tudo é novo. Depois de mais de 20 anos em uma empresa do setor de autopeças ele está agora no ramo do entretenimento. “Eu encaro isso tudo como um grande desafio. Mudança não me assusta.”

Giacomelli acredita que, depois dos 50 anos, a experiência e a qualificação profissional são fatores muito importantes para se recolocar no mercado de trabalho. “É primordial”, reforça.

Experiência

“O profissional mais velho, com mais de 50 anos pode, muita vezes, custar mais caro para a companhia, mas é preciso ver o valor agregado que ele tem, como experiência”, diz a vice-diretora acadêmica da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), Maria José Tonelli.

A vice-diretora da FGV orientou uma dissertação de mestrado da aluna Vanessa Martines Cepellos, intitulada “O envelhecimento nas organizações: das percepções de gestores de recursos humanos à práticas de gestão de idade”. Para o trabalho foram entrevistadas 108 empresas de várias localidades e diferentes setores da economia.

Segundo Maria José, as empresas admitem que o profissional mais velho tem mais experiência, são mais comprometidos, tem mais conhecimento da companhia, visão sistêmica e equilíbrio emocional. Ao mesmo tempo, consideram que estão menos inseridos nas novas tecnologias, podem custar mais caro para as empresas e estão mais acomodados.

“O interessante é que as empresas têm o profissional mais velho em seus quadros, gostam de suas qualidades, mas não transferem o conhecimento dele para o mais novo. Não se aproveitam ou investem nessa característica”, conta.

Disposição 

Aos 54 anos, Hebe Anversa de Castro, está realizada com seu novo trabalho, diretora comercial no grupo hospitalar Santa Celina. Depois de atuar quase 30 anos em grandes operadoras de saúde na área de gestão hospitalar, a bióloga sentia-se profissionalmente estável.

“Em 2011, deixei a empresa em que estava e veio a preocupação, pois nunca tinha ficado sem trabalhar. Tinha os filhos, os custos fixos mensais, mas foi uma preocupação saudável e não desesperadora”, lembra.

Ela conta que se encantava com mais nada no setor de saúde. E se perguntava o que fazer com a enorme bagagem profissional adquirida ao longo da carreira. Hebe entrou em contato com todas as pessoas com as quais teve relacionamento profissional e montou uma rede. Nesse período, surgiu a oportunidade de prestar serviços para a Medial. “Era a minha oportunidade de continuar a ser vista pelo mercado.”

Hebe. Muito a aprender (Imagem: Divulgação)

Um anos depois, foi descoberta por um headhunter para a vaga na diretoria comercial do Santa Celina. “Estou realizada pessoal e profissionalmente, é um novo desafio. Eu me encontrei aqui”, diz.

Para Hebe, quem acredita que aos 50 anos é hora de desacelerar está enganado. “Em nenhum momento eu pensei em parar. Eu preciso trabalhar, pois ainda vou viver muito, tenho muito que contribuir, que me adaptar, que aprender com as diferentes gerações.”

Conduta profissional

Em novembro de 2012, depois de seis anos trabalhando em uma empresa de comunicação no Rio, o carioca Marcus Vinicius Teixeira Martins, de 51 anos, foi demitido. “Eu não fiquei preocupado e achei melhor esperar passar a época de festas para procurar outra colocação”, diz o técnico em contabilidade, que sempre trabalhou na área administrativa e financeira. Martins conta que ter sido “um bom colega” foi fundamental para a recolocação.

“Eu não precisei procurar emprego. Participei apenas de dois processos seletivos e logo fui indicado para uma vaga na Rádio Globo. E deu certo.” Desde março, ele é assistente financeiro na empresa. “Acho que minha experiência foi importante, mas a minha conduta profissional foi relevante. Se eu não fosse um bom colega de trabalho não teria sido indicado para essa vaga”, diz.

Martins acredita que o mercado de trabalho mudou bastante e que as empresas olham mais para o histórico profissional do candidato. Ele, que tem uma deficiência leve na perna, sequela de poliomielite, diz que em momento algum achou que a idade ou a deficiência seriam impeditivos para estar no mercado de trabalho.

“A idade é um agravante”

Os dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio (Pnad) de 2012, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a população com mais de 50 anos já representam 21,63% dos trabalhadores no País. “Existe uma variação no mercado, mas há oportunidades para esse segmento”, diz o coordenador de Gestão de Pessoas da Fundação Instituto de Administração (FIA), Wilson Amorim.

Mas nem sempre é fácil conquistar essa oportunidade. Paulo Celso de Oliveira, de 63 anos, segue em sua batalha por um emprego. Engenheiro mecânico automobilístico, desde 2008 tenta se recolocar no mercado de trabalho. “Fui demitido aos 50 anos quando era diretor de uma companhia. Consegui uma vaga rapidamente, prestei consultoria, mas quando chegou a crise econômica em 2008, perdi o emprego e não consigo mais nada”, conta.

Oliveira diz que desde então procura por uma vaga, por intermédio de amigos e ex-colegas de trabalho. E também envia currículos para as vagas disponíveis no mercado. “Não tenho condições financeiras para investir em um headhunter, então procuro por meio dos meus contatos e pela internet.”

O engenheiro revela que até agora fez apenas uma entrevista. “A idade é um agravante. Eu tenho conhecimento técnico, de gestão, trabalhei em muitas empresas do setor, desenvolvi projetos, falo italiano e inglês e não consigo me recolocar.”


Oliveira. “Tenho conhecimento técnico e de gestão” (Imagem: Werther Santana/Estadão)

Oliveira acredita que ainda pode contribuir para o mercado de trabalho. E, enquanto o emprego não vem, ele realiza trabalhos administrativos na escola de sua mulher. “Eu tenho experiência e muito a ensinar e a aprender. Ainda tenho tempo para colaborar”, diz.

Diretora da DMRH, Sandra Finardi diz que mesmo depois dos 50 anos o profissional deve estar aberto para aprender e o mercado deve estar preparado para a flexibilidade que ele precisa ter. “O importante é não se fechar para as propostas que surgirem.” Amorim, da FIA diz que o mercado de trabalho está acompanhando o envelhecimento da população. “O mercado deve continuar oferecendo vagas para profissionais com mais de 50 anos”, acredita.

Contudo, Amorim destaca que as empresas precisam entender as especificidades de um profissional dessa idade, como a intensidade e duração da jornada de trabalho e trabalhar com uma equipe composta por três gerações com experiências, cultura, educação e formação diferentes.

Oliveira mantém sua busca. “São 33 anos de experiência e muita disposição para continuar atuando.”

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