Agenda ESG depende de diálogo e corre risco com projeto autocrata em curso

Agenda ESG depende de diálogo e corre risco com projeto autocrata em curso

Práticas sociais, ambientais e de governança dependem de diálogo, transparência, inclusão e solidariedade, atributos que não podem ser associados ao projeto da atual administração do País

Ricardo Sales

25 de junho de 2021 | 10h34

O momento que vivemos é peculiar por diversas razões. A confluência das crises política, econômica e sanitária nos desafia a repensar os modelos de negócios e a maneira como as sociedades estão estruturadas. Neste contexto, profissionais de sustentabilidade têm vivenciado sentimentos extremos. De um lado, a alegria de ver o protagonismo que esta agenda conquistou. De outro, a preocupação com a possibilidade de o Brasil perder uma oportunidade histórica.

ESG, a sigla que identifica os temas ambiental, social e de governança, virou o tema da vez no meio corporativo. Grandes investidores estão mais atentos à atuação das empresas em que aplicam recursos, e conselhos de administração começam a trazer o tema para o centro da estratégia de negócio, e não mais como uma agenda acessória.

É um momento de virada inédito em amplitude e profundidade. O Brasil, notadamente um dos países mais diversos do mundo, teria tudo para nadar de braçada, com suas florestas, seus imensos reservatórios de água e sua população multicultural. Estamos, porém, desperdiçando esta chance.

Amazônia: desmatamento atinge números recordes. Foto: Gabriela Biló/Estadão

O desmatamento na Amazônia atinge números recordes, como atesta o MapBiomas, o governo federal se isenta de desenvolver políticas de inclusão para grupos vulneráveis e o sistema democrático está sob forte pressão de ameaças autoritárias. Sobre este último ponto, os sinais emitidos nas últimas semanas são preocupantes.

Analistas têm se perguntado quando as democracias morrem e se podemos identificar um ponto a partir do qual não há retorno. À incompetência na gestão da pandemia somam-se os arroubos de agressividade do presidente Jair Bolsonaro contra a imprensa, a politização do Exército e das forças de segurança pública e a contestação prévia dos resultados das urnas no ano que vem caso eles não apontem a vitória do atual mandatário.

A possibilidade de ruptura democrática parece bastante visível, mas este não é um debate fácil de se endereçar no meio empresarial. Muitas vezes, mesmo as empresas atentas à pauta ESG se furtam dessa discussão, ora alegando que não se envolvem com política, ora creditando a “delírios esquerdistas” quaisquer apontamentos críticos à atual administração.

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A discussão, assim, fica interditada justamente no momento em que altas lideranças e conselhos de administração deveriam trazer o tema para seus mapas de risco e, indo além, colocando-se contra qualquer ameaça institucional.

Não existe ESG sem democracia. Práticas sociais, ambientais e de governança dependem de diálogo, transparência, inclusão e solidariedade – atributos que não podem ser associados ao projeto autocrata em curso no País.

Das empresas, espera-se que se posicionem a favor dos Direitos Humanos, da igualdade de oportunidades e da economia da floresta em pé. Não se trata de escolha partidária, mas, sim, de participar da vida política, passando um recado consistente à sociedade.

O negacionismo trouxe consequências graves ao Brasil na gestão da pandemia. O autoritarismo pode nos excluir de vez do cenário mundial justamente no momento em que poderíamos brilhar mais.

* Ricardo Sales é sócio da consultoria Mais Diversidade, professor na Fundação Dom Cabral e pesquisador na Universidade de São Paulo (ricardo@maisdiversidade.com.br).

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