Ano termina com contratações em alta e desemprego em baixa

Ano termina com contratações em alta e desemprego em baixa

Ligia Aguilhar

21 de dezembro de 2010 | 17h29

Foram quatro anos de trabalho na área de compras da mesma empresa antes de Érika de Castro Ricciardi partir em busca de um novo emprego no início do ano.  Para seu espanto, conseguiu mudar de trabalho não só uma, mas duas vezes.  Na semana passada, ela deixou o cargo de gestora de produtos em uma companhia do setor automotivo para trabalhar como coordenadora de compras em uma atacadista, ambas as mudanças motivadas pela oportunidade de ascensão profissional.

O caso de Érika não é isolado. É reflexo do bom momento da economia e da volta da confiança dos empresários após a crise de 2008/2009, fatores que mantiveram o mercado de trabalho aquecido durante todo o ano.  Prova disso é a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que, em novembro, registrou a menor taxa de desocupação dos brasileiros desde 2002: 5,7%.

O número de trabalhadores com carteira assinada também atingiu recorde histórico neste ano, chegando a 2,5 milhões de novos contratos até novembro, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).  “Em 2009, eu procurei um novo trabalho, mas senti que as empresas estavam retraídas em virtude da economia.  Neste ano, elas expandiram e muitas oportunidades apareceram”, diz Érika.

Com o mercado em alta, as empresas também tiveram de aumentar a remuneração para atrair novos talentos e reter
a mão de obra.  O Relatório Global Sobre os Salários 2010/2011 – Políticas Salariais em Tempo de Crise, divulgado na última quarta-feira pela Organização Internacional de Trabalho (OIT), mostrou que o salário dos brasileiros cresceu mais do que a média mundial em 2009 – o aumento foi de 3,2% no ano passado contra 1,6% na média global.

Se as chances de crescimento aumentaram, a concorrência e as exigências dos empregadores também cresceram.
“Estão contratando pessoas em todos os níveis, mas exigindo experiência, domínio de outro idioma e boa formação”, diz Érika.

Os setores mais aquecidos foram os de comércio, serviços e construção civil, que devem seguir em alta no próximo ano por conta de projetos como a exploração do pré-sal, o Minha Casa, Minha Vida e os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.  Já os profissionais mais procurados foram engenheiros, técnicos de informática, contabilistas e profissionais de RH com inglês fluente.

A Asap, consultoria especializada no recrutamento e seleção de executivos de média gerência, fechou o ano de 2010 com um aumento de 108% nos seus jobs.  Segundo a empresa, o ano foi marcado pelo aquecimento do mercado e pela disputa de talentos.  “Durante as entrevistas percebi que havia candidatos que estavam participando de até outros cinco processos seletivos ao mesmo tempo”, diz o diretor da Asap, Fernando Marucci.

Um levantamento feito pela consultoria com base nos processos seletivos realizados em sua carteira de clientes
mostra que o setor que mais contratou em 2010 foi o mercado financeiro (39%), seguido por indústria e infraestrutura (35%), consumo e mercado farmacêutico (18%) e TI e telecom (8%).

O levantamento aponta ainda que a demanda crescente por engenheiros, que causou um apagão desses profissionais
em 2010, deve continuar em 2011.

Bom momento. A consultoria DMRH também sentiu o aquecimento do mercado.  O faturamento da empresa cresceu 50% em 2010.  Os programas de trainee tiveram aumento de 42%, a contratação de especialistas se manteve no mesmo patamar, em torno de 40%, e a contratação de executivos aumentou 30%.

“Tivemos um grande ano para os executivos e percebemos forte demanda na construção civil, no segmento de bens
de consumo, no varejo e mercado financeiro”, diz Sandra Finardi, diretora da unidade de executivos da DMRH.
A diretora aposta na continuidade da expansão do mercado no próximo ano e avisa: quanto maior a qualificação,
maiores as chances de crescimento profissional.  “A fluência em outro idioma se tornou fundamental em qualquer
processo seletivo”, diz.

Não são só os trabalhadores que precisam se adaptar à nova realidade.  As empresas também devem estar preparadas para lidar, em 2011, com as consequências do aquecimento da economia.  Entre elas, a escassez de mão de obra, já que algumas profissões se aproximam de um cenário de pleno emprego. “É natural a dificuldade de contratar pessoas quando a economia vai bem e o número de desempregados é baixo”, diz o pesquisador do grupo de trabalho e renda do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Gonzalez.

“As empresas acabam tendo aumento nos seus custos para investir na capacitação e formação de profissionais. Mas isso não deve ser visto como um gargalo que impede o crescimento, mas sim como uma oportunidade para investir” diz Gonzalez. Para ele, o desafio das companhias é conseguir gerar relações de trabalho mais duradouras.

(Matéria publicada no caderno Empregos em 19/12/2010)

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