Apenas 1% das empresas dá mais de 2 meses de licença-paternidade
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Apenas 1% das empresas dá mais de 2 meses de licença-paternidade

Segundo pesquisa do grupo Talenses, 13% das corporações entrevistadas dão até 20 dias para funcionários pais; iniciativas privadas incluem gays e solteiros

Levy Teles

22 de março de 2020 | 06h01

Especial para O Estado

Um estudo da Universidade de Warwick, no Reino Unido, constatou que, se em 1982 eram 43% os pais que admitiam nunca ter trocado uma fralda, em 2010 esse número havia caído para 3%. Os tempos mudaram. Mais participativos no cuidado dos filhos, os pais, por outro lado, ainda têm outra realidade a encarar: o curto período de benefício garantido pela licença-paternidade.

A Talenses Group, empresa especializada em recrutamento e seleção, em pesquisa realizada em dezembro com 721 organizações e divulgada agora pelo Estado, observou que 71% das empresas dão apenas cinco dias de licença-paternidade para seus funcionários, o mínimo exigido pela lei brasileira. Entre as entrevistadas, 13% cedem 20 dias aos pais e apenas 1% garantem mais de dois meses de benefício.

“O que, na verdade, nos impressiona é que não é um tema que aconteceu ontem. É uma coisa mais comum (a licença mais curta) nas organizações”, comenta Rodrigo Vianna, diretor da Talenses. A pesquisa – que foi realizada em parceria com a Filhos no Currículo, empresa especializada em programas corporativos para mães e pais – ainda consultou a política de licença-maternidade nessas empresas. Enquanto 63% delas garantem o tempo mínimo para mães, de quatro meses, são 29% as que cedem seis meses.

Preocupadas em incrementar os benefícios oferecidos a seus funcionários, a Philip Morris passou a conceder no ano passado 20 dias de licença-paternidade para funcionários que realizarem o curso Pai Presente: Cuidado e Compromisso, feito em parceria com o Ministério da Saúde. O curso tem 12 horas de extensão e é realizado online.

Kleiton Reis e sua filha, Stella; na Philip Morris, ele emendou férias com 20 dias de licença. Foto: Arquivo Pessoal

“Se a criança nasce no fim de semana, cinco dias é muito pouco. Não dá nem tempo para registrar a criança”, conta Kleiton Marques, de 32 anos, especialista em TI (tecnologia da informação) e funcionário da Philip Morris. Kleiton e Gabriela Shwanke, de 26 anos, são pais de primeira viagem. Stella, de apenas 11 meses, é a filha do casal.

Na empresa, uma possibilidade é emendar férias que estejam para vencer, para somar aos 20 dias de licença-paternidade. Foi o que Kleiton fez: 50 dias em que ele pôde estar o dia inteiro ao lado da filha após o nascimento. “Foi esse o momento que nos descobrimos como família”, diz ele, que é filho de pai ausente. “Ser pai é conseguir fazer pra ela tudo aquilo que eu sempre quis pra mim como filho.”

O benefício da Philip Morris também contempla casais LGBT+ e solteiros, que têm a licença-paternidade igualada à licença-maternidade. São de 120 a 180 dias de benefício – válidos também para pais adotivos -, além do auxílio-creche e da licença casamento. Nos casos de casais gays, a licença é para os funcionários desde que seu cônjuge não possa tirar a licença na empresa em que trabalha.

Ainda segundo a pesquisa do grupo Talenses, além da satisfação dos funcionários com a licença-paternidade de 20 dias, os empresários relatam dois principais benefícios gerados com isso: a retenção de talentos (73%) e o aumento da produtividade no retorno do profissional ao trabalho (61%).

Daniel Luna, que teve 6 meses de licença na Diageo. Foto: Arquivo Pessoal

Mais de dois meses de licença-paternidade

A pesquisa do Talenses Group mostra ainda que, além do abismo entre a licença-maternidade e a licença-paternidade, 39% das empresas que possuem ações voltadas para as mães não possuem ações voltadas para os pais.

Para minimizar as diferenças, a Sanofi, empresa da área farmacêutica, iniciou no dia 1º de janeiro deste ano a implementação da licença parental neutra remunerada de até seis meses para todos os colaboradores, independentemente de gênero, tanto para filhos biológicos como para adoções. A empresa adotava o sistema de 20 dias de licença desde 2017.

“Queremos contribuir positivamente para uma sociedade mais igualitária, oferecendo oportunidades para todos, independentemente de seu gênero, sua cor, sua orientação sexual ou sua função dentro da empresa”, observa o diretor de Recursos Humanos da Sanofi no Brasil, Pedro Pittella.

A Diageo é outra empresa que concede o período de seis meses de licença-paternidade aos funcionários – mais especificamente seis meses e duas semanas. O benefício vale para todos os funcionários da Diageo, corporação do setor de bebidas alcoólicas que detém marcas como Johnnie Walker.

“Sua mentalidade muda quando você passa a compartilhar as obrigações com a sua esposa. Muitas vezes você muda sua forma de pensar”, conta Daniel Luna, de 36 anos, líder de produção na fábrica da Ypióca, uma das marcas da Diageo, em Fortaleza.

Ele é pai de Maria Laura, sua terceira filha, que completou o sexto mês de vida. “Sou muito grato à empresa por ter me propiciado isso”, conta. A política corporativa também é válida para todos os tipos de casais e começou em 1º de julho do ano passado.

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