Após pandemia, local de trabalho dificilmente voltará a ser como antes
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Após pandemia, local de trabalho dificilmente voltará a ser como antes

Além de obrigatoriedade de scanners térmicos, distância entre mesas, tapetes de papel descartáveis e abertura automática de portas devem prevalecer; tendências de design e arquitetura serão mudadas

Jena McGregor / The Washington Post

04 de maio de 2020 | 11h24

Divisórias “à prova de espirro”. “Zonas seguras” demarcando os lugares onde teremos que ficar nos elevadores. Aplicativos que monitoram os contatos para detectar interações entre colegas de trabalho, e leituras da temperatura por raios infravermelhos.

Enquanto alguns Estados americanos começam a adotar medidas para a reabertura das suas economias, e os trabalhadores da Boeing voltam aos seus postos depois de três semanas de licença, as empresas, as firmas de design, as construtoras e assessores corporativos começam a imaginar como funcionará a volta ao trabalho em meio à pandemia do novo coronavírus.

A transição provavelmente será lenta, desigual e cautelosa e os empregadores terão de administrar os constantes temores dos trabalhadores, as restrições dos governos e da saúde pública, os fechamentos das escolas e das creches, e – acima de tudo – as perspectivas de uma segunda onda de coronavírus possivelmente ainda mais letal.

Muito depende da disponibilidade – e da precisão – dos kits de teste da presença do vírus e dos anticorpos. Os testes dos anticorpos, ou sorológicos, poderão mostrar os que desenvolveram uma reação imunológica à doença e poderão retornar com segurança ao trabalho, mas há boatos quanto à precisão dos testes.

Mesmo assim, as companhias estão começando ativamente a se preparar para o eventual retorno de pelo menos alguns funcionários administrativos que estiveram trabalhando a distância – repensando a disposição dos espaços, escalonando os cronogramas do trabalho e fazendo mudanças que poderão transformar fundamentalmente as relações com os empregadores, como o scanning térmico para medir as temperaturas. Outras empresas aproveitaram sua experiência na Ásia ou na gestão dos trabalhadores essenciais durante o fechamento, passando a utilizar mais o distanciamento social adaptado ao local de trabalho.

Optando por uma maior transformação, alguns instrumentos poderão ajudar as empresas a identificar rapidamente os colegas que um funcionário infectado encontrou no escritório.

Funcionário é testado em empresa na Itália, medida de proteção em retorno ao trabalho. Foto: Massimo Pinca/Reuters-4/5/2020

A companhia PricewaterhouseCoopers conversou com mais de 50 clientes a respeito de uma nova ferramenta de rastreamento dos contatos para empresas que ela pretende lançar em maio. A ferramenta acrescenta um novo aplicativo ou uma linha de código aos aplicativos da companhia que os funcionários já têm em seus telefones, depois roda em segundo plano, usando sinais do bluetooth ou wifi para catalogar os telefones de outros colaboradores que se aproximam.

Quando um empregado testa positivo para a covid-19, gerentes autorizados podem identificar rapidamente e notificar todos os colegas com os quais o funcionário teve contato a fim de evitar um surto maior, driblando o processo demorado das entrevistas dos funcionários, pedindo que lembrem das suas interações. O rastreamento só funcionará nas instalações da companhia, não colige dados referentes a locais e só pode ser acessado por determinados gerentes, explicou a PwC.

As companhias falam também em obrigar ao uso de scanners térmicos, disse Tom Puthiyamadam, que dirige a prática Digital da PwC US. “Nem toda empresa irá ordenar e controlar a medida, mas acho que neste momento algumas destas práticas são seguras”, ele disse. “Não acredito que muitos funcionários se recusem, porque estão realmente apavorados com a volta.”

Algumas companhias começaram a explorar suas próprias iniciativas em matéria de testes. O CEO da Amazon, Jeff Bezos, que é dono também do jornal The Washington Post, escreveu em uma carta de 16 de abril endereçada aos investidores que a gigante do comércio eletrônico transferiu uma equipe de especialistas de suas tarefas diárias para trabalharem com testes, montando equipamentos para construir o seu primeiro laboratório na esperança de começar a testar, “dentro em breve, pequenos grupos de nossos funcionários da linha de frente”.

O Goldman Sachs estuda a possibilidade de introduzir termômetros corporais infravermelhos em alguns escritórios, juntamente com kits de testes de vírus e de anticorpos para os funcionários, assim que se tornarem mais disponíveis e os trabalhadores da saúde da linha de frente disponham dos equipamentos necessários.

As companhias com escritórios na Ásia que começaram a reabrir talvez estejam mais adiantados do que outros com esse tipo de planejamento. A IBM, que começou a aumentar o número de funcionários em várias locações na China e na Coreia do Sul, estabeleceu normas globais para a volta aos escritórios.

Entre eles, trazer de volta em primeiro lugar os que precisam de acesso a equipamentos no local ou aos laboratórios, escalonando os horários de chegada para que os elevadores não lotem, eliminação dos bufês e do compartilhamento de utensílios para servir nas lanchonetes, e retirando mobília de outros espaços para facilitar o distanciamento social que preocupa nas salas de conferências. “Quanto maiores as restrições no layout dos escritórios, menos as pessoas conseguirão se adequar”, afirmou Joanna Daly, vice-presidente de recursos humanos da IBM.

Na Intel, onde funcionários do setor de produção e dos laboratórios permaneceram no local em muitas das várias instalações ao redor do globo, a fabricante de chips planeja um retorno em três fases para os funcionários que estiveram trabalhando em casa. Isto poderá incluir a distribuição de máscaras, a avaliação dos sintomas, o fechamento de academias nos locais de trabalho, limitação dos assentos nos cafés e oferecendo tampos de plásticos para serem inutilizados no caso dos teclados compartilhados. A companhia já constatou que aumentar a frequência e a visibilidade da limpeza durante o dia, em lugar do tradicional serviço noturno ou nos fins de semana, ajudou os funcionários que permaneceram no local a se sentirem mais confortáveis.

“Não acredito que isto mudará tão cedo, mesmo que voltemos ao normal”, observou Darcy Ortiz, vice-presidente de serviços corporativos da Intel, referindo-se ao aumento da limpeza. Nem a ideia de mais pessoas trabalhando de casa, disse Ortiz. “Esta se tornou uma enorme experiência social e acredito que isto contribuirá para que ela se abra.”

O presidente Donald Trump apresentou amplas diretrizes para os Estados reabrirem as atividades, depois de sugerir que ele tem total autoridade” para reabrir o país. Algumas indústrias afirmaram que recomeçarão logo a produção. Mas os dirigentes empresariais deverão se mostrar cautelosos e não chamar de volta aos escritórios funcionários que estiveram trabalhando de casa com sucesso.

Vamos ser mais conservadores do que os países em que nos encontramos”, disse Ortiz da Intel. “Quando eles levantarem as restrições, nós demoraremos ainda um pouco para termos a certeza de que não haverá uma segunda onda.”

Em seus escritórios de Amsterdã, a imobiliária comercial Cushman & Waterfield informou que criou um protótipo em que carpetes em placas podem delinear um raio de cerca de dois metros ao redor de uma mesa de trabalho. E ela oferece tapete de papel que os funcionários podem estender sobre as mesas compartilhadas antes de colocarem sobre elas seus laptops ou teclados. Uma placa circular indicando “zona segura” no chão de um elevador mostra onde as pessoas precisam ficar.

Por meio de sua joint venture com a construtora chinesa Vanke, a companhia já aconselhou milhares de companhias da Ásia sobre a volta ao trabalho. O escritório de arquitetura e design Gensler lançou um dispositivo chamado ReRun para ajudar os empregadores a ter uma ideia das possibilidades de ocupação de maneira que possam aplicar as normas de distanciamento social às suas atuais disposições de assentos.

A prazo mais curto, provavelmente as companhias adotarão rápidas mudanças que envolvam custos limitados. Os assentos serão presos por cordões ou retirados das salas de conferências reduzindo assim a ocupação pela metade. As portas serão retiradas ou deixadas abertas para que os funcionários evitem tocar as maçanetas. Haverá placas mostrando às pessoas o fluxo de tráfego de mão única nos corredores para evitar que os funcionários transitem próximos demais uns dos outros – embora isto implique em alongar a distância até as toaletes.

Uma das maiores mudanças que os funcionários de escritório poderão ver é o espaçamento das mesas a fim de manter a distância, a disposição das cadeiras (em que os funcionários estarão sentados segundo uma linha diagonal e não mais diretamente um em frente ao outro) ou possíveis divisórias nas mesas para aumentar a sensação de proteção.

“Não acredito que o escritório aberto deva desaparecer, mas acho que poderemos ter novas barreiras para maior conforto”, afirmou Brent Capron, diretor de design do local de trabalho para o escritório de arquitetura Perkins & Will. “Eu o chamei de ‘efeito proteção de espirro’.”

No site de finanças e investimentos pessoais The Motley Fool, sediado em Alexandria, Virgínia, a diretora de operações, Shannon McLendon, disse que a companhia com cerca de 400 funcionários de escritório afastará suas mesas – que têm mais de 1,80 metro de largura e têm rodas – um pouco mais longe uma das outras.

Ela também procura oferecer máscaras faciais e uma maior limpeza dos escritórios, e ainda instalar portas que abrem com o pé na base para que o sinais de mão ou marcadores de espaço para que os funcionários lembrem aos outros de manter a distância.

“Estamos pensando em algum tipo de aviso universal que diga: ‘Você está perto demais, preciso de espaço’ ”, ela disse.

Para os escritórios em que as pessoas têm mesas próprias, os designers preveem mais normas para “mesas limpas”, exigindo que os funcionários guardem fotos, bugigangas ou outras lembranças pessoais. As mesas particulares não costumam ser limpas com muita frequência, afirma Kay Sargent, diretora do setor de espaço de trabalho, do escritório de arquitetura e design HOK, porque os serviços de limpeza são avisados para não bagunçarem as precárias pilhas de papéis.

“A maioria das mesas particulares é mais suja do que um banheiro.” Sargent acha que as companhias passarão cada vez mais a adotar mesas compartilhadas – conceito conhecido como “hotelling” ou “hot desking” – embora ela acredite que, com o aumento da limpeza e com a tecnologia de sensores, “explodirá”.

Nos últimos quatro ou cinco anos, as companhias vêm usando cada vez mais sensores que detectam o movimento – ou wifi – instalados no teto ou nas mesas para monitorar se os espaços estão sendo subutilizados. “Agora, serão usados com o objetivo contrário – para saber se estão sendo devidamente utilizados. Estamos usando o espaçamento correto? Há pontos de aperto em que há superlotação?”, ela disse, observando que os sensores poderão dizer quando as pessoas deixam um lugar vazio e alertar os limpadores para que possa ser limpo e novamente ocupado.

“É possível que os funcionários levem mais tempo para entrar no prédio. Como as companhias checarão a temperatura de quem entrar nos edifícios e reduzirão consideravelmente os limites de ocupação dos elevadores, as pessoas não poderão entrar nos prédios muito depressa”, disse Despina Katsikakis, diretora de desempenho dos negócios dos ocupantes da Cushman & Wakefield.

Com o passar do tempo, o coronavírus seguramente mudará as tendências no design de escritórios que vêm crescendo há mais de dez anos.

Os espaços para conferências a portas fechadas com poltronas estofadas para reuniões de última hora poderão ser cooptadas para as mesas dos funcionários nos projetos de espaços socialmente distantes. Acabamentos mais aconchegantes, como superfícies de madeira, poderão ser substituídos com o aumento do uso mais frequente de produtos de limpeza mais fortes. Bares e cervejarias que atraem multidões poderão ficar temporariamente fechados enquanto permanecerem em vigor as diretrizes de distanciamento.

“Tem havido uma verdadeira guerra de cortesias” no design de escritórios que encoraja os encontros aleatórios entre os funcionários, disse Steve Smith, um diretor da firma de design de escritórios Cooper Carry. “Enquanto antes tentávamos transformar estes embates em happenings, agora tentamos fazer exatamente o contrário.”

Uma coisa é certa: muitos funcionários provaram que podem trabalhar de maneira eficiente em casa, e as companhias deverão continuar permitindo que muitos continuem fazendo isto por muito tempo.

“Acho que algumas pessoas talvez não queiram mais voltar para o ambiente do escritório”, afirmou Travis Vance, que é copresidente do grupo de segurança do local de trabalho do escritório de advocacia especializado em emprego e mão de obra, Fisher Phillips. Ele disse que até o escalonamento dos horários de almoço poderá tornar-se complicado, porque os empregadores procuram reduzir as multidões nas lanchonetes do campus. “É como na escola, onde a gente almoça a partir das 10h45 até 14h. Este hábito deverá se espalhar.”

Muitos também preveem a modernização dos sistemas de HVAC e da tecnologia, como a instalação de portas automáticas ou mudança dos quiosques para os instrumentos de pagamento ou agendamento sem usar as mãos.

A prazo mais longo, afirmam especialistas em design e imóveis, os efeitos do coronavírus poderão penetrar no design arquitetônico. As entradas nos sanitários deixarão de ter portas, como os dos aeroportos, permitiria entrar sem contato, previu Lenny Beaudoin, um diretor gerente executivo da CBRE. Corredores de dois metros de largura provavelmente serão ampliados, segundo alguns especialistas em projetos de escritórios. E elevadores ativados pela voz humana “não deverão ser maiores do que isto”, segundo Smith da Cooper Carry.

Se o número de funcionários que preferem continuar trabalhando em casa aumentar, algumas empresas provavelmente reduzirão o espaço dos seus escritórios. O escritório de advocacia Sterne Kessler de Washington cogitara mudar-se ou reduzir seu espaço atual e reformular o espaço em si, com novos planos que poderiam prever mais espaços de trabalho compartilhados e áreas comuns com “um ambiente com sofás e no estilo da Starbucks”, disse o diretor de Operações Robert Burger.

Mas depois que o coronavírus devastou a economia, e toda a empresa de 400 funcionários passou a trabalhar com sucesso de casa, Burger está reconsiderando. “Não acredito que as pessoas queiram trabalhar sentadas a cinco centímetros de distância umas das outras”, ponderou, e agora ele pensa em projetos com menos áreas “flex”. Ele prepara o retorno eventual dos funcionários modernizando o sistema de circulação de ar, preparando as pessoas a assistirem a mais videoconferências, e procurando máscaras que possam ser usadas no escritório.

Como muitos advogados e funcionários chegaram à conclusão de que trabalhar em casa funciona, Burger também vê uma oportunidade em potencial em encolher ainda mais a superfície dos escritórios, mantendo as áreas privadas, mas os funcionários as utilizariam em dias alternados. Burger concluiu: “Agora, todas as possibilidades estão em cima da mesa”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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