Aprenda a lidar com as mudanças no seu negócio após a crise

Aprenda a lidar com as mudanças no seu negócio após a crise

Com a reabertura da economia, as empresas sobreviventes poderão, gradualmente, inserir novos elementos no seu dia a dia

Breno Paquelet

08 de junho de 2020 | 13h19

Crises costumam forçar mudanças que já vinham se desenhando em tempos de normalidade. Entre as tendências que se consolidaram durante a crise estão, por exemplo, o crescimento do comércio eletrônico, o home office e o ensino virtual. Essas ferramentas, que vinham crescendo com o avanço da tecnologia nos últimos anos e com a mudança no estilo de vida da população, ainda encontravam resistência de muitas pessoas e empresas. Discussões sobre vantagens e desvantagens de cada modelo avançavam até o ponto em que eram expostos os riscos de mudança e o ambiente de constante urgência e imediatismo.

Com a crise, essas mudanças deixaram de ser desejáveis e tornaram-se essenciais. Operar de forma remota foi a única opção para a maioria dos negócios. Não havia mais espaço para ponderação. A decisão passou a ser simplesmente se adaptar ou quebrar. O comércio eletrônico cresceu consideravelmente, surpreendendo a muitos com seus benefícios, mas também demonstrando ineficiências de entrega e atendimento.

O ensino virtual encantou muitos usuários que não acreditavam ser possível adquirir conhecimento de qualidade a distância e deu acesso direto a professores de primeira linha às pessoas distantes dos grandes centros. Já o home office permitiu que empresas continuassem operando, demonstrou que muitas reuniões desnecessárias no dia a dia podem ser suprimidas ou substituídas por breves reuniões virtuais, mas também demonstrou diversos obstáculos.

Antes de avaliar essas mudanças como benéficas ou maléficas, precisamos considerar que qualquer análise definitiva sobre esses modelos, neste momento, seria equivocada. Não se pode avaliar negativamente o home office, por ter obtido uma experiência ruim em um período em que as condições eram totalmente inapropriadas (filhos fora da escola, cônjuges em casa, alta incerteza e ansiedade).

Para muitas empresas, a adaptação para metodologias virtuais como o home office foi uma das únicas opções para sobreviver durante esse período. Foto: Pixabay

Não se pode desconsiderar os benefícios do comércio eletrônico por falhas de entrega quando as empresas contavam com menos estrutura, limitações de operação e altíssima demanda logística. Tampouco se pode desconsiderar as vantagens oferecidas pelo ensino virtual por causa de uma experiência ruim que pode ter sido gerada por um erro de plataforma ou pela falta de adaptação de professores específicos ao novo formato.

O comércio eletrônico, o home office e o ensino virtual, assim como outros, são ferramentas originalmente neutras – seu uso depende da finalidade e habilidade do usuário. Assim como uma faca, que pode ser usada para cozinhar, fazer uma cirurgia ou para matar, essas ferramentas podem ser transformacionais ou irrelevantes, dependendo de quem ou como as utiliza.

Essas experiências recentes foram um importante passo para quebrar paradigmas. Agora, existem elementos para uma análise mais profunda de ferramentas cuja testagem foi adiada por muito tempo. As empresas com maior potencial para se beneficiar delas serão as que conseguirem pegar os pontos positivos dessas ferramentas e identificar como podem ser adaptados à rotina em momentos normais. Apesar do tão falado “novo normal”, as mudanças nas empresas não precisam ser dramáticas, do tipo tudo ou nada.

Alguns negócios terão que se reinventar completamente, mas não todos. Com a reabertura da economia, as empresas sobreviventes poderão, gradualmente, inserir novos elementos no seu dia a dia, avaliar benefícios e se adaptar, em ciclos de evolução constante. Evolução não exige, necessariamente, reinvenção. Afirmar que adaptações graduais pode ser um caminho não significa dizer que empresários devem voltar aos velhos hábitos, como se nada tivesse acontecido. O “novo normal” demandará equilíbrio e consistência, assim como o “antigo normal”.

*Breno Paquelet é especialista em negociações estratégicas pela Harvard Business School, com educação executiva em Estratégia Empresarial no Massachusetts Institute of Technology (MIT). É professor do MBA em Gestão Empreendedora da Universidade Federal Fluminense (UFF), professor convidado da Casa do Saber/RJ e autor do livro ‘Pare de Ganhar Mal’ (ed. Sextante).

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