Estudo de caso é método de aprendizagem pouco usado no País
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Estudo de caso é método de aprendizagem pouco usado no País

Claudio Marques

19 de janeiro de 2018 | 13h17

Pixabay

Artigo de James Wright*

A Universidade Harvard lançou há mais de cem anos o método de caso para ensino de administração, mas este ainda é pouco usado no Brasil. O método é usado intensamente nas melhores universidades do mundo, em especial nos MBAs – o mestrado profissionalizante em administração de negócios reconhecido em todo o mundo desenvolvido como o padrão ideal para a formação de gestores e empreendedores.

O método de casos inverte o modelo tradicional da sala de aula, pois no lugar do professor discursando para ensinar, os alunos é que são desafiados a aprender analisando casos práticos. Um caso típico é composto por um documento com 10 a 20 páginas de texto que descreve uma situação real pela ótica de um executivo da empresa . O texto é complementado com tabelas, demonstrativos contábeis e outras informações quantitativas. Em geral não é colocada uma pergunta específica; o primeiro desafio dos estudantes é de identificar qual é o problema que a empresa enfrenta.

O papel do professor nesta sala de aula invertida não é o de apresentar respostas, mas sim o de estimular as análises, desafiar premissas e promover a troca de ideias, o senso crítico e a argumentação fundamentada em conceitos teóricos sólidos.

Não há uma abordagem única para se conduzir um estudo de caso, mas em geral, na etapa final da aula o professor faz uma síntese crítica das análises realizadas pelos alunos e das conclusões alcançadas. Como na vida empresarial real, em casos complexos não há uma resposta absolutamente certa ou errada; o que importa aqui é a jornada de aprendizagem.

Tipicamente o professor inicia a aula escolhendo aleatoriamente um estudante e fazendo uma pergunta do tipo “o que o personagem José do caso deve fazer? Seguida por “alguém discorda?… Porquê?”, estimulado assim o debate.

Os alunos precisam preparar-se com afinco; nas melhores escolas, a qualidade de cada resposta vale nota, e omitir-se leva a notas negativas. Nos cursos de Harvard, é usual estudar dois casos por dia, requerendo leitura prévia e análise de 40 páginas de casos, além de leituras de artigos e capítulos referentes ao tema da aula.

O MBA em Harvard e em algumas poucas escolas baseia-se quase exclusivamente no método de caso, ao passo que outras, como Kellogg, Wharton e Chicago usam uma mescla de casos, aulas teóricas e simulações com resultados até melhores. Esta abordagem mista deveria ser mais largamente utilizada no Brasil, mas apenas uma meia dúzia de escolas brasileiras de primeira linha o fazem.

Neste mês de janeiro, uma equipe do International MBA da FIA ganhou um prêmio de 5 mil dólares canadenses ao alcançar um inédito 3º lugar na John Molson International Case Competition em Montreal, no Canadá, o concurso maior do mundo, com 36 escolas representando 19 países. No torneio, cada equipe recebe o texto e fica até 3 horas isolada numa sala para preparar sua apresentação. Foram seis meses de torneios seletivos internos no Brasil, disciplinas ministradas por meio de casos, e treinamentos e ensaios aos sábados e feriados. Jamais uma escola sul americana havia chegado ao pódio nesta competição.

Capacidade para lidar com situações complexas e informações incompletas, ter senso crítico, criatividade, trabalho em equipe e capacidade de persuasão para defender suas proposições são, e são requisitos para o sucesso na competição de casos e também são requisitos essenciais para um executivo liderar uma empresa moderna.

Nossas pesquisas mostram que o Brasil precisa praticamente dobrar a produtividade de seus trabalhadores para alcançar em 30 anos um nível de renda per capita similar ao do sul da Europa. Formar administradores competentes e capacitados para lidar com casos reais das nossas empresas é um elemento essencial para aumentar a competitividade de Brasil, e as escolas brasileiras precisam reduzir as palestras do professor que tudo sabe e pouco ensina para incluir um modelo consagrado onde o professor é um guia que apoia a aprendizagem dos futuros líderes da economia real do nosso País.

*Doutor em Administração pela FEA-USP, é diretor da FIA Business School

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