As mulheres fizeram tudo certo, mas aí o trabalho se tornou ‘mais ganancioso’
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As mulheres fizeram tudo certo, mas aí o trabalho se tornou ‘mais ganancioso’

Pesquisadores mostram que a tecnologia é um dos fatores que levaram ao abismo entre homens e mulheres, e entre aqueles totalmente disponíveis para o trabalho, pois deixou os profissionais mais acessíveis

Claire Cain Miller

01 de maio de 2019 | 10h26

THE NEW YORK TIMES

Daniela Jampel e Matthew Schneid se conheceram na faculdade, em Cornell, e se formaram em direito. Ambos conseguiram empregos em grandes escritórios de advocacia, empregos daqueles em que a pessoa quando se torna associada tem um salário (anual) de sete dígitos.

Um casamento e dez anos mais tarde, ela trabalha 21 horas por semana como advogada em Nova York, trabalho que lhe permite passar dois dias por semana em casa com os filhos, de 5 anos e 1 ano, e lhe possibilita alterar seus horários em caso de necessidade. Ele é sócio num escritório de advocacia de médio porte e trabalha 60 horas por semana – 80, se estiver concluindo um grande negócio – e pode ser chamado à noite ou durante os fins de semana. Ele ganha de quatro a seis vezes mais que ela, dependendo do ano.

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Não é como imaginavam dividir o ganha-pão e os cuidados com a família. Mas os dois dizem que, se ele consegue ser tão bem-sucedido, é em parte por causa da flexibilidade dela. “Estou aqui para o caso de se ele precisar trabalhar até tarde ou sair com clientes”, disse Jampel. “Os dias em que neva não são problema. Marco todas as visitas ao médico para meus dias de folga. Ele não precisa pensar nisso. Se ele tiver que trabalhar até tarde ou em fins de semana, não tem que pensar em ‘oh, Deus, quem vai olhar as crianças?’. Tais pensamentos nem lhe passam pela cabeça.”

Mulheres americanas em idade de trabalho têm mais escolaridade que nunca. No entanto, as mais preparadas são justamente as mais discriminadas quanto a bons cargos e salários. Elas são apenas 5% dos executivos das grandes empresas e um quarto dos 10% de funcionários mais bem pagos dos Estados Unidos.

Há muitas causas para o gap, como discriminação e falta de políticas que beneficiem a família. Mas, recentemente, crescentes evidências levaram economistas e sociólogos a convergir para um grande fator divisório – um que, ostensivamente, nada tem a ver com gênero.

O casal Daniela Jampel e Matthew Schneid com seus filhos, em Nova York. Foto: Gabriela Bhaskar/NYT

O retorno salarial para longas e inflexíveis horas de trabalho cresceu fortemente. Isso é particularmente verdadeiro em cargos administrativos e no que cientistas sociais chamam de “profissões gananciosas”- um efeito paralelo não intencional da adoção pelo país de uma economia do tipo o-vencedor-leva-tudo. O fenômeno é poderoso que, segundo pesquisadores, cancelou os efeitos dos ganhos educacionais das mulheres.

Justamente quando as mulheres estão se graduando, os empregos que exigem essa graduação começaram a pagar desproporcionalmente mais às pessoas com disponibilidade total para o trabalho. Ao mesmo tempo, mulheres mais altamente educadas começaram a se casar com homens com nível similar de educação, e a ter filhos. Mas pais só conseguem trabalhar em tempo integral se um dos dois cuidar da casa. Usualmente, quem faz isso é a mãe.

Mulheres não desistem de trabalhar por terem maridos ricos. Elas têm maridos ricos porque desistiram de trabalhar

Não se trata de mulheres com alta escolaridade optarem por deixar o trabalho (elas são quem menos quer parar de trabalhar após o nascimento dos filhos, mesmo tendo que mudar para empregos menos exigentes). Trata-se de a natureza do trabalho ter mudado de tal modo que está forçando casais com igual potencial de carreira a assumir papéis desiguais.

“Pelo aumento da desigualdade, se você calcular em horas extras as discussões das noites de domingo vai ganhar muito mais”, disse Claudia Goldin, economista da Universidade Harvard que está escrevendo um livro sobre o tema. Para maximizar a tenda da família, mas ainda manter os filhos vivos, é lógico que um dos pais assuma um emprego intensivo e o outro um menos exigente, disse ela. “O problema é que na maioria dos casais, se forem um homem e uma mulher, a mulher fica em segundo plano.”

“Mulheres não desistem de trabalhar por terem maridos ricos”, disse Goldin. “Ao contrário: elas têm maridos ricos porque desistiram de trabalhar.”

Prêmio pelo excesso de trabalho

Foi só nas duas últimas décadas que empregados assalariados passaram a ganhar mais por trabalharem longas horas. Quatro décadas atrás, pessoas que trabalhavam pelo menos 50 horas por semana ganhavam 15% menos, por hora, que aqueles que trabalhavam o período tradicional. Por volta de 2000, no entanto, a punição por trabalhar mais tornou-se um prêmio. Hoje, quem trabalha 50 horas ou mais ganha 8% a mais por hora do que quem, em funções similares, trabalha de 35 a 49 horas, segundo pesquisa de Youngjioo Cha (Universidade de Indiana), Kim Weede (Universidade Cornell) e Mauricio Bucca (Universidade Europeia).

Trabalhar cada vez mais atinge extremos em cargos administrativos e nas “profissões gananciosas” – termo cunhado pelo sociólogo Lewis Coser em 1974 para descrever funções que exigem “lealdade total e indivisível”. (A socióloga Rose Laub Coser também usou a expressão para definir as expectativas da maternidade.) Mas trabalhar mais (ou no mínimo passar mais tempo na empresa, independentemente de quanto trabalho está sendo feito) tornou-se comum em um número cada vez maior de profissões, sejam ligada a contabilidade, tecnologia da informação ou qualquer outra em que o chefe fica até tarde e manda e-mais nos fins de semana, esperando que os empregados o acompanhem.

A tecnologia é uma das razões para a mudança, dizem pesquisadores: os trabalhadores estão mais facilmente acessíveis e podem fazer mais trabalhos à distância. Os negócios também ficaram mais globais, obrigando muitas pessoas a trabalharem em diferentes fusos horários. Ou grande mudança é o crescente gap entre quem ganha mais e quem ganha menos, e o emprego cada vez mais instável. Mais empregos que exigem qualificações mais elevadas são do tipo “cresça ou saia”. Mesmo que não sejam, o trabalho tornou-se mais competitivo e trabalhar longas horas virou símbolo de status.

“O prêmio para o vencedor é hoje muito maior que no passado”, disse Cha. “Você tem que se destacar entre os colegas, e um dos meios para isso são suas horas extras.”

Daniela Jampel, segundo quem o tempo que passa em casa não vale tanto quanto se estivesse trabalhando. Foto: Gabriela Bhaskar/NYT

“Derrubar tudo”

Existem muitas ideias para se diminuir o gap entre gêneros – coisas como licença-paternidade e treinamento antipreconceito. Mulheres poderiam negociar mais; homens poderiam fazer mais trabalho doméstico. Mas a maioria são paliativos, disse Goldin – provavelmente ajudam, mas não chegam à raiz do problema.

“É esse o sistema que aparece na série de TV Mad Men e estamos presos a ele, mas seguimos atacando-o com pequenos golpes em lugar de derrubar todo o edifício”, disse ela.

Certas medidas aliviariam o trabalho dos pais em casa, como pré-escola pública para todos, jornadas escolares mais longas, cuidados com as crianças depois das aulas, férias menores e menos feriados escolares. Mas a solução definitiva, segundo pesquisadores, também não seria possibilitar às mães trabalhar mais horas. Seria reorganizar o trabalho de maneira que ninguém precisasse fazer isso.

O modo mais eficaz de se fazer isso, segundo a pesquisa de Goldin concluiu, é os empregadores darem aos funcionários horários mais previsíveis e flexibilidade sobre onde e quando o trabalho deve ser feito. Isso acontece quando se torna mais fácil aos trabalhadores substituírem-se uns aos outros.

Sinto que teria uma vida mais feliz se pudesse ficar mais tempo com meus filhos e não me estressasse tanto no trabalho

Mas nada deve mudar, segundo os pesquisadores, se os trabalhadores não começarem a exigir mudanças. As empresas se beneficiam com trabalhadores que “dão sangue” e não vão mudar só porque são boazinhas. Mas elas se arriscam a perder empregados dedicados – incluindo homens – se não mudarem. Quando só as mulheres que mudam para empregos com horários previsíveis se beneficiam com a flexibilidade, isso apenas prejudica um pouco mais suas carreiras.

Há indícios de que as coisas podem mudar. Homens jovens dizem que querem envolver-se e participar mais da vida doméstica, mostram as pesquisas. As mulheres estão ultrapassando os homens na escola, mas os empregadores desperdiçam essa vantagem. E mais pessoas estão se queixando de trabalhar demais.

“Pode ser difícil reestruturar empregos, mas há muito dinheiro envolvido nisso”, disse Nicholas Bloom, economista da Universidade Stanford que estuda práticas de administração. “Empresas podem lucrar muito se reformularem empregos de modo a receber pessoas altamente preparadas que querem trabalhar 40 horas semanais, não 80.”

Os arranjos que Schneid e Jampel fizeram para sua família foram os melhores possíveis dentro das circunstâncias, disseram eles. Mas Schneid se sente sobrecarregado entre a incessante pressão do trabalho e o tempo que pode passar com a família.

“Sinto que teria uma vida mais feliz se pudesse ficar mais tempo com meus filhos e não me estressasse tanto no trabalho”, disse ele, “mas acho que a decisão que tomamos é a melhor para nossa família.”
Jampel sente raiva porque o tempo que ela passa cuidando da casa não vale tanto, financeiramente falando, quanto o que ganharia trabalhando. “Ninguém explica isso quando temos 21 anos, mas, em retrospectiva, não foi a decisão mais sábia fazer empréstimos para estudar direito”, disse ela.

De qualquer modo, ela está feliz por ter encontrado um emprego de meio período do qual gosta. E ele acha que tem sorte de trabalhar numa empresa em que não tem de ficar todo o tempo no escritório. Mas, e se os dois pudessem reescrever suas vidas? Aí, ambos procurariam melhores opções.

/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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