As pessoas no trabalho são idiotas? Talvez você é que precise melhorar

As pessoas no trabalho são idiotas? Talvez você é que precise melhorar

No livro ‘Cercado de Idiotas’, o escritor e consultor sueco Thomas Erikson aponta caminhos para uma melhor comunicação ao longo da carreira a partir de método de análise comportamental

Ana Paula Boni

18 de setembro de 2020 | 10h00

O ser humano médio tem uma dificuldade natural de lidar com a discordância do outro. Invariavelmente, acha que, se o interlocutor não pensa como você ou se você não o entende, ele é um idiota. Certa vez, um chefe chamado Sture reclamava que todo mundo da empresa era idiota. Bem, ele era o dono e havia contratado todos eles.

O escritor e consultor sueco Thomas Erikson usa esse exemplo no começo do seu livro Cercado de Idiotas (lançado no último mês no Brasil pela editora Intrínseca, leia ficha mais abaixo) para ilustrar o quão importante é não só entender o seu próprio comportamento como também o do outro para afinar a comunicação e poder obter resultados positivos dessa relação.

Há mais de 25 anos dando palestras e treinando equipes e líderes pelo mundo, Erikson usa o método DISC (descrito pelo psicólogo americano William Moulton Marston em livro de 1928) para penetrar no mercado de trabalho, avaliar equipes e fazê-las entenderem os benefícios de se reconhecer e ajustar o discurso ao outro, sendo você chefe ou subordinado.

O método de análise comportamental DISC é a abreviatura em inglês para quatro características do comportamento humano, que mais tarde ganharam cores: dominância (vermelho), influência (amarelo), estabilidade (verde) e conformidade (azul).

Chegar a essas palavras foi a forma que Marston encontrou para traduzir conceitos tão antigos quanto o grego Hipócrates, que dividia os comportamentos em colérico (vermelho), sanguíneo (amarelo), fleumático (verde) e melancólico (azul).

E o que isso tem a ver com o trabalho?

Tudo. O método é, inclusive, largamente utilizado em trabalhos de coaches, recrutadores e profissionais de RH, para seleção e gestão de talentos. O livro Cercado de Idiotas é a sistematização de Erikson sobre décadas de uso do método para ajudar os outros a entenderem o que funciona ou não nas equipes. Grosso modo, as pessoas podem ser assim descritas:

  • Vermelho: ambicioso, determinado, rápido, pontual, impaciente, guiado por resultados
  • Amarelo: entusiasmado, criativo, encorajador, falante, sem interesse por rotina
  • Azul: sistemático, distante, parece inseguro, perfeccionista, meticuloso, segue regras
  • Verde: leal, cauteloso, discreto, acolhedor, prestativo, produtivo, guiado por relações

As pessoas não têm apenas uma cor, frisa Erikson. Em geral, uma cor é predominante e há pitadas de outras (mas jamais as quatro cores juntas).

“Se você é na maioria verde, provavelmente deve soar um tanto amigável. Se você tem bastante de amarelo, deve começar cada frase em ‘eu’ e falar bastante sobre si mesmo. O vermelho acaba sendo direto ao ponto e o azul vai produzir uma apresentação maior e mais detalhada”, comenta ele, em entrevista concedida por e-mail ao Estadão. “Geralmente os amarelos vão entender mal os azuis, e vice-versa. Sem mencionar como vermelhos geralmente percebem os verdes…”

Cercado de Idiotas foi publicado originalmente em 2014 e já vendeu 1,5 milhão de exemplares em mais de 20 países. O autor já publicou lá fora outros livros sobre o mesmo tema: Cercado de Psicopatas, Cercado de Péssimos Chefes e Cercado de Contratempos, ainda não publicados no Brasil (tradução livre do nome do título). Segundo a editora Intrínseca, Cercado de Péssimos Chefes será lançado no Brasil em 2021.

Confira trechos da entrevista a seguir.

O escritor e consultor sueco Thomas Erikson. Foto: Gabriel Liljevall

Quando foi a primeira vez que o sr. começou a classificar as pessoas pelo método DISC?

Meu primeiro contato com o método de avaliação DISC foi quando o departamento de RH do banco onde eu trabalhava me chamou de canto e disse: ‘Ei, vamos dar uma olhada em quem você realmente é’. Eu tinha dado uma clara virada na direção errada em minha primeira função gerencial – eu tinha 24 anos de idade – e fiz com que fosse completamente impossível outras pessoas trabalharem comigo.

O método DISC abriu meus olhos num doloroso caminho. O relatório (da minha avaliação) estava cheio de momentos de comemoração ao lado de outros aterrorizadores. Era o que as pessoas ao meu lado estavam tentando me dizer fazia tempos. Mas eu não prestei atenção. Quando eu vi isso impresso (no relatório), foi a primeira vez que comecei a ouvir os outros. Desde então, passei a usar isso para mim.

As pessoas que ouvem pela primeira vez sobre o método das cores não acham simplista demais?

Em minhas palestras, eu explico que as 4 cores são apenas ingredientes básicos. Quando eu sou pego com a questão se só existem quatro tipos de pessoas, eu uso o exemplo de fazer um bolo. Você precisa de leite, manteiga, ovos e outros, mas você pode misturá-los de vários diferentes jeitos. É a mesma coisa com as cores. Dependendo de quanto azul a pessoa esteja mostrando, ou se é em combinação com verde ou amarelo, você verá diferentes comportamentos.

Mas, em minha opinião, é valioso aprender o básico antes. Quando você entende o que significa ser azul, daí é hora de descobrir as nuances. Eu não uso as 4 cores ou o modelo DISC como um manual técnico. Eu o uso como uma estrutura, sempre ciente de que é difícil descrever pessoas num pedaço de papel. Mas isso me ajuda a reconhecer os padrões. E me ajuda a ajustar meu próprio comportamento e a evitar muitos conflitos desnecessários.

Em Cercado de Idiotas, o sr. mostra que é possível identificar uma pessoa por um simples e-mail, mas o sr. é um expert. Em quanto tempo de convívio acha que pessoas comuns conseguem identificar a cor com 100% de certeza?

Eu uso essa ferramenta há mais de 25 anos, então é claro que é mais fácil para mim do que para alguém que acabou de ler o livro. Mas com 100% de certeza, talvez nunca. As pessoas são mais complexas do que isso. Mas todos nós podemos ficar melhor ao reconhecer diferentes comportamentos. Apenas prestando atenção no outro – em vez de prestar atenção em si mesmo – você pode descobrir bastante. O comportamento que uma pessoa mostra também varia um pouco de acordo com a situação, e algumas pessoas são mais fáceis de entender do que outras. Isso é o que ainda me fascina nisso tudo. Você nunca terá 100% de certeza sobre nada. Nem mesmo sobre si mesmo.

Acha que a identificação das pessoas para uma melhor comunicação é para empregados se adaptarem aos chefes, e não o contrário?

Comunicação não é uma rua de mão única. Ambas as partes são responsáveis sobre como a interação se dá. É claro, seu chefe tem algum poder sobre você, mas a maioria das pessoas gosta de ser encontrada onde elas estão, incluindo seu chefe. Se eu posso me ajustar em direção à minha chefe, e se ela ajustar seu comportamento um pouco na minha direção, nós teremos uma comunicação mais tranquila sem violar nossas personalidades.

Eu treinei milhares de líderes e gestores com este método, e aqueles que começaram a usá-lo dizem que mudaram sua percepção sobre os subordinados de um jeito positivo. De repente, pessoas não interpretam erroneamente seus colegas com a frequência que faziam antes. É mais fácil trazer à tona tópicos complicados. A maioria das pessoas entende totalmente que precisa-se de mais para alcançar uma liderança eficiente, mas sem uma boa comunicação nada vai funcionar tão bem quanto poderia.

Chefes vermelhos deveriam ter mais paciência para identificar a cor/personalidade de seus subordinados e se ajustar para poder mandar de forma mais eficaz?

Chefes vermelhos são de fato bem comuns em todo o mundo. Eles são afiados e aceitam o fato de que é solitário estar no topo. Orientados por meta como eles são, eles sempre lutam por resultados. Mas, como você está sugerindo, algumas vezes eles esquecem completamente que é com pessoas que estão lidando.

Muitos subordinados têm de fato medo dos chefes vermelhos por causa desse estilo de comunicação dominante. Se o chefe vermelho quiser que o time produza o melhor possível, ele ou ela precisa reduzir o ritmo e ouvir os outros um pouco mais. E, claro, precisa ajustar sua comunicação em direção ao time. Mas isso sempre começa com autoconhecimento, dos dois lados.

Foto: Gabriel Liljevall

Atualmente, fala-se muito em soft skills (competências comportamentais). Saber qual é a própria cor ajuda na escolha do que se escrever no currículo de acordo com o cargo desejado?

Absolutamente. Se você por exemplo é na maioria verde, você provavelmente deve soar um tanto amigável em sua apresentação. Se você tem bastante de amarelo, você deve começar cada frase em “eu” e falar bastante sobre você mesmo. O candidato vermelho acaba sendo direto ao ponto e o azul vai produzir uma apresentação maior e mais detalhada. Minha recomendação é que você seja você o máximo possível, sem esquecer que diferentes pessoas analisarão você e sua escrita de diferentes jeitos.

A equipe de RH de uma empresa deveria ser obrigada a reconhecer técnicas de comportamento como essas, para ajudar na formação de equipes?

Sim. Muitos departamentos de RH usam esse tipo de ferramenta quando estão recrutando e quando se trata de planejamento de carreira. Nem todas as cores são úteis em todas as situações, então isso deve ser levado em conta. Precisamos de outro contador extremamente amarelo? Mesmo em resolução de conflitos as quatro cores podem ser bastante benéficas. Geralmente os amarelos vão entender mal os azuis, e vice-versa. Sem mencionar como vermelhos geralmente percebem os verdes…

Qual a coisa mais difícil que o sr. enfrenta: dizer para as pessoas que cor elas são ou fazê-las entender que precisam se adaptar ao outro?

Definitivamente, fazê-los ajustarem a si próprios. Todo mundo acha que já está fazendo a coisa certa. O problema é que é difícil mudar a si mesmo. Isso demanda discernimento, interesse, vontade, esforço, energia, entre outros. Mas, quando você percebe o que realmente ganha usando esse método de avaliação na sua rotina, você nunca volta atrás.

Você diz que tem coisas de azul em sua personalidade. O que mais?

Eu tenho bastante de azul, mas também bastante de vermelho. Por cima de tudo, um pouco de amarelo. Nenhum verde. Mas, como disse antes, meu autoconhecimento está bastante apurado após 25 anos, então eu posso facilmente me adaptar a quase qualquer um. E frequentemente eu escolho fazer isso. Isso frustra minha mulher algumas vezes, que nunca sabe que cor ela encontrará.

 

CERCADO DE IDIOTAS
Autor: Thomas Erikson
Tradução: Ananda Badaró
Editora: Intrínseca; 304 págs.
Impresso: R$ 49,90; e-book: R$ 34,90

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