Aspectos estruturais da sociedade impõem mais obstáculos à mulher no mercado
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Aspectos estruturais da sociedade impõem mais obstáculos à mulher no mercado

Relatório do Fórum Econômico Mundial mostra por meio de números como a mulher ainda tem baixa representação na política e menos oportunidades econômicas no Brasil

Breno Paquelet

10 de março de 2020 | 08h54

O Fórum Econômico Mundial publicou relatório em que apresenta o índice de igualdade entre homens e mulheres nos países, considerando quatro aspectos: oportunidades econômicas, saúde, educação e representação política. O Brasil alcançou igualdade entre gêneros em dois índices: educação e saúde. As mulheres estudam igual ou mais do que os homens em todos os níveis e têm expectativa de vida ligeiramente superior.

Já a diferença na representação política continua sendo enorme. Mulheres possuem índice de ocupação de apenas 13% das posições políticas: possível reflexo do atraso com que obtiveram o direito de votar e serem votadas (somente na década de 1930 – sendo que mulheres casadas ainda precisavam da autorização do marido) e de terem sido eleitas pela primeira vez por voto universal para o Senado apenas na década de 1990.

No índice de oportunidades econômicas, que representa o quanto mulheres recebem menos do que os homens, o Fórum aponta diferença de 31% entre os gêneros. Outros estudos indicam que mulheres recebem em média US$ 0,80 para cada US$ 1 recebido pelos homens. O ponto não é tentar provar que há diferença de remuneração para a mesma função, já que ela é mais difícil de identificar e é proibida por lei.

A intenção é atentar para o fato de que aspectos estruturais da sociedade e do mercado de trabalho impõem obstáculos maiores às mulheres do que aos homens ao longo da carreira, contrapondo análises simplistas que tendem a negar a diferença geral de rendimentos entre gêneros ou reduzir essa discussão a aspectos como vitimismo ou meritocracia.

Mesmo com baixa representatividade, mulheres somam 51,5% da população, de acordo com IBGE. Foto: Pixabay

Apenas 9% dos cargos dos conselhos de diretores de empresas listadas na Bolsa são ocupados por mulheres, e menos de 20% das empresas brasileiras são geridas por elas. Se mulheres representam metade da força de trabalho e possuem o mesmo nível educacional, esses resultados representam um desequilíbrio que merece ser compreendido com maior profundidade. Uma explicação passa pelo fato de que conseguir ocupar cargos de liderança – pelo formato atual de trabalho – demanda trabalhar mais horas, por mais anos, com menos flexibilidade.

Uma importante dificuldade enfrentada pelas mulheres é que as obrigações familiares têm peso desproporcional sobre elas, que trabalham quatro vezes mais horas do que os homens em atividades domésticas não remuneradas. Mães são três vezes mais propensas a ter que sair dos seus empregos ou a reduzir suas horas de trabalho para cuidar dos filhos.

A pressão social é outra barreira. Em uma pesquisa que questionava qual era o formato de trabalho ideal para casais com filhos pequenos, 70% acreditavam que os homens deveriam trabalhar em período integral e só 12% acreditavam que as mulheres deveriam trabalhar nesse formato.

Outro ponto que chama a atenção é a dificuldade que mulheres enfrentam para fazer networking e ter acesso a mentores – aspectos que estão ligados à ascensão nas empresas, em ambientes dominados por homens e onde o assédio ainda é uma realidade. Nos EUA, estima-se que 85% das mulheres tenham sofrido algum tipo de assédio ao longo da carreira – o que as torna seis vezes mais propensas a deixar seus cargos.

Para resolver o desequilíbrio, é importante dar peso maior a um lado momentaneamente, até que o equilíbrio seja restabelecido

Esses fatos afetam a continuidade nos empregos, que ainda é fator determinante para alcançar posições de destaque nas empresas (CEOs passam em média 15 anos nas empresas até alcançar esse título). Mulheres que precisam abandonar ou flexibilizar seu trabalho – principalmente no momento em que estavam em ascensão – acabam precisando aceitar posições abaixo de suas capacidades para seguir na carreira.

O Dia Internacional da Mulher é um bom momento para refletir e tentar entender melhor como questões estruturais importantes moldam a participação de homens e mulheres no ambiente profissional. Para resolver um problema, o primeiro passo é reconhecê-lo. E aceitar que, para resolver o desequilíbrio, é importante dar peso maior a um lado momentaneamente, até que o equilíbrio seja restabelecido.

*Breno Paquelet é especialista em negociações estratégicas pela Harvard Business School, com educação executiva em Estratégia Empresarial no Massachusetts Institute of Technology (MIT). É professor do MBA em Gestão Empreendedora da Universidade Federal Fluminense (UFF), professor convidado da Casa do Saber/RJ e autor do livro ‘Pare de Ganhar Mal’ (Sextante).

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