Até que a aposentadoria os separe
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Até que a aposentadoria os separe

Profissionais contam o que os leva a manter um 'casamento' de décadas de trabalho com uma mesma empresa

Claudio Marques

21 de novembro de 2018 | 07h35

Foto: Pixabay

Ambiente de trabalho, salários, benefícios e, principalmente, possibilidade de crescimento – na carreira e pessoalmente – e propósito são alguns dos atrativos capazes de contribuir para se dar um match entre profissional e empresa. Quando isso acontece, é possível sim celebrar uma união do tipo até que a aposentadoria os separe.

Para profissionais de recursos humanos, permanecer por muito tempo no quadro de funcionários de uma mesma companhia não necessariamente significa que o colaborador esteja estagnado ou acomodado. No caso do gerente de produção Luiz Ribeiro, foram justamente as oportunidades de vida que a multinacional sueca de embalagens Tetra Pak poderia proporcionar que conquistaram o então jovem lavrador de Monte Mor (SP). O resultado é um “casamento” que já dura 35 anos.

Além de trabalhar na terra, Ribeiro já havia sido auxiliar de pedreiro e cobrador de ônibus. E viu na empresa a possibilidade de ter uma carreira. Começou na companhia em 1981 como auxiliar de limpeza e, após 17 dias, passou a trabalhar na cortadeira como auxiliar de máquinas. Pouco tempo depois, tornou-se auxiliar de produção. “Aí fui vendo que era uma empresa bastante sólida, no sentido do desenvolvimento (para o profissional).” Ribeiro conta que tinha pouco estudo na época. “Então, fiz um acordo com minha chefia pelo qual eu pude trocar de horário e trabalhar só à noite, para ter as manhãs disponíveis e acelerar meus estudos por meio de supletivo, colegial e depois até fazer a faculdade”, conta.

Luiz Ribeiro trabalha há 35 anos na Tetra Pak. Foto de Carlos Nascimento

“Em 1992, eu estava no primeiro passo de liderança e a empresa me deu condições para eu fazer um curso de inglês na Inglaterra. Como também tínhamos uma fábrica lá, eu fui em busca de algumas inovações para trazer para cá”, conta. “Foi minha primeira viagem e meu primeiro trabalho fora.” Em seguida, foi para a faculdade e posteriormente ajudou a desenvolver um projeto de embalagem na República Dominicana. “Foi um aprendizado muito grande para mim. Tudo isso, ia me motivando a ficar.” Mais tarde, tornou-se gerente de produção de duas linhas grandes. “Foi uma possibilidade de exercitar o que eu havia aprendido na faculdade de administração, como gestão de pessoas.”

‘Tive de me esforçar muito’

Ele fala sobre suas dificuldades. “Entrei em uma multinacional e vi que eu não tinha preparo suficiente para crescer rapidamente dentro da empresa. Tive de correr atrás, foi bastante difícil. Aos 23/24 anos, já estava casado e senti ainda mais a dificuldade, porque já estava constituindo família. Tive de me esforçar muito. Muitas vezes eu viajava para atender cliente, ficava 10/12 dias sem ir para a sala de aula. Meus colegas reuniam o material para mim e quando chegava o final de semana eu me trancava em casa. Pedia para minha mulher pegar o filho e irem para o clube para eu poder recuperar o que havia perdido em aula. Foi bastante dificultoso, mas muito gratificante, porque eu aprendi muito”, conta.

Ribeiro reconhece que poderia estar em uma posição mais elevada na empresa, se tivesse ido para o exterior. Mas não quis ir por causa da família. “Não há arrependimento. Sou feliz com meu trabalho, com o que eu faço, sou feliz em contribuir para uma empresa que alicerçou a minha vida”, diz.

Assistente da diretoria, Mônica Fonseca está há 28 anos na American Airlines. Foto de Leo Martins / Estadão.

No caso de Mônica Fonseca, então recém-graduada em Letras pela PUC, o trabalho na American Airlines (AA) lhe oferecia a perspectiva de contato com pessoas e outras culturas, diferentemente do trabalho de tradutora: para ela, uma tarefa solitária. Posteriormente, acabou ocorrendo uma mudança no seu rumo profissional, o que também contribuiu para ela estar na companhia por 28 anos.

‘Possibilidade de conhecer o mundo enche os olhos’

“Quando soube do início das operações da AA aqui no Brasil, eu me inscrevi. E comecei na empresa como agente de reservas. Mas antes, fui para Dallas (EUA) fazer um curso durante um mês. A possibilidade de conhecer o mundo, que a companhia proporciona, para um jovem, principalmente em 1990, enche os olhos”, conta.

“Aí o trajeto foi se desenvolvendo. Trabalhei em reservas, fui para loja, fiquei dois anos no escritório central, pedi a transferência para o aeroporto de Guarulhos, trabalhei nove anos lá. Fiquei na área operacional, até que fui trabalhar na área de orçamento. Durante um ano, trabalhei nesse setor e interagia com todas as áreas da empresa, era atenção ao passageiro, segurança, cargas, rampa, tudo”, relembra.

Mudança de direção na vida profissional

Uma nova perspectiva de carreira começou a se desenhar quando ela passou a gerenciar o orçamento. No cargo, tinha contatos mais frequentes com o diretor-geral da companhia no Brasil. “Na época em que eu tinha me candidatado para uma vaga no departamento de vendas, a secretária dele se casou e se mudou para o exterior. Quando ele soube do meu interesse em sair do aeroporto e ir para o comercial, veio o convite para trabalhar como secretária dele. E eu nunca tinha pensado nisso.”

Mônica aceitou, dando uma nova direção para sua vida profissional. Ela logo foi efetivada no cargo, graças ao conhecimento anterior que tinha do funcionamento de toda a empresa e das pessoas. “Se fosse preciso fazer uma reserva, entrava no sistema e fazia. Se tinha de fazer uma cotação, ia e fazia. E eu conhecia tudo e todo mundo”, diz ela, que  continua no cargo, apesar da mudança de diretor-geral ocorrida em 2008.

Ela tem planos de ficar na empresa até se aposentar. “São outros tempos. Se for conversar com um dos meus sobrinhos, millennials, ele vai dizer, ‘você está há tanto tempo nessa empresa, não é acomodação?’ Eu vou dizer, não! Ela me deixa feliz até hoje.”

Millennials e geração Z

Mesmo para o millennials (nascidos a partir de 1980 até a metade da década de 1990, segundo alguns autores) e para geração Z (a partir de meados dos ano 1990), a possibilidade de encontrar um propósito, motivação e um match entre o que a geração acredita que as empresas devam fazer contribui para a permanência dos jovens nas organizações. A pesquisa Deloitte Millennial Survey 2018 mostra que sem essa ligação, o turn over pode ser alto. Entre os millennials, 43% imaginam deixar seus empregos dentro de dois anos; apenas 28% procuram ficar além de cinco anos. Entre os profissionais da geração Z, 61% disseram que sairiam dentro de dois anos.

Os índices correspondem às respostas dos 10.455 millennials e 684 integrantes da geração Z entrevistados para a questão: ‘Se você tivesse escolha, quanto tempo você ficaria com seu atual empregador antes de sair para se juntar a uma nova organização ou fazer algo diferente?’

“Trabalhadores mais jovens precisam de razões positivas para ficar com seus empregadores; precisam que lhes sejam oferecidas perspectivas realistas de que, permanecendo leais à empresa no longo prazo, ficarão materialmente melhor e, como indivíduos, vão se desenvolver mais rápido do que se saíssem”, diz o texto do estudo da Deloitte.

A supervisora comercial Eveline Crespo trabalha há 23 anos na Helibras. Foto de Gabriela Bilo/Estadão

Para Eveline Crespo, que hoje é supervisora comercial da fabricante de helicópteros Helibras, subsidiária da Airbus, o que a levou a ficar 23 anos na empresa foi a visão de crescimento e de formação que a companhia proporciona. Ela se formou em matemática aplicada à informática e começou a trabalhar na companhia  como estagiária. “A empresa faz um trabalho de reflexão, do tipo o que você quer ser daqui a cinco anos. Ela dá essa possibilidade de pensarmos onde queremos chegar. Onde a pessoa se enxerga”, diz.

Até conquistar seu posto atual, em que lidera um time de dez pessoas, passou dez anos auxiliando técnicos e engenheiros nos processos de montagem de helicópteros na área técnica de Planejamento e Preparação de Produção e cursou uma pós-graduação em administração. “Hoje, a liderança tem de ser educadora para receber bem o jovem, ajudá-lo em sua formação e identificar se de fato ele tem o perfil para o qual está trabalhando, e observar o que ele precisa para se desenvolver”, afirma.